23 de maio de 2026
COLUNISTA

Branco de olhos azuis com Displasia Cemento Óssea

Por Alberto Consolaro | Professor titular da USP e colunista de Ciências do JC
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução
Imagens da Displasia Cemento-óssea Periapical na parte de cima, e da Displasia Cemento Óssea Florida em baixo

Branco de olhos azuis com Displasia Cemento Óssea
A ciência tentou distinguir as “raças” humanas pelo DNA, mas jamais conseguiu.  A raça humana é única e o que se pode distinguir é apenas a origem/local no globo que advém o indivíduo. Sugere-se a etnia que pertence, mas jamais a raça pela cor da pele.
Algumas doenças afetam mais certas etnias, mas os humanos têm na miscigenação uma de suas características marcantes. No Brasil, os estudos já revelaram que 75% das pessoas têm genes da etnia negra e podemos dizer que somos todos afrodescendentes.
Entre as doenças que afetam os indivíduos da etnia negra, nos ossos maxilares e dentes temos as Displasias Cemento-Ósseas. Afetam mais as mulheres negras na faixa etária de 40 anos, muito embora aconteça eventualmente em homens. Considerando a formação do povo brasileiro, eventualmente podem acontecer em pessoas de pele branca e olhos claros.

DISPLASIAS CEMENTO ÓSSEAS 

O ligamento periodontal das raízes dentárias se ligam ao osso por um tecido especial chamado “osso alveolar propriamente dito” ou “osso fasciculado”. É uma fina camada que reveste o alvéolo dentário e se renova muito rapidamente para estar pronto para suportar e distribuir as forças pelo ligamento periodontal. A maior parte do osso que suporta os dentes nos maxilares se chama processo alveolar.
Nas pessoas de etnia negra, eventualmente, neste osso alveolar propriamente dito ou fasciculado, ocorre um provável erro genético não hereditário. Esta renovação constante perde o controle e o processo alveolar da mandíbula vai sendo trocado por um osso malfeito ou displásico (formado de forma defeituosa) e vai lenta e silenciosamente ocupando todo o processo alveolar. 
Nas radiografias e tomografias, parece que os dentes estão sendo envolvidos por flocos de algodão. O osso vai ficando muito denso e biologicamente qualquer bactéria que chegar nele pode provocar uma inflamação extensa e destrutiva chamada Osteomielite Purulenta. 
Mas, em algumas pessoas a displasia pode acontecer somente na ponta das raízes dos dentes incisivos e caninos inferiores e quase sempre não evolui para nada prejudicial ao paciente se houver preservação dos dentes e muito menos para uma osteomielite. Não maligniza, não dói e nem tem sinais clínicos, e muito menos ainda precisa fazer os canais desses dentes. Chamada de Displasia Cemento Óssea Periapical, não requer tratamento, apenas orientação. É frequente e típica de mulheres da etnia negra e diagnosticadas na faixa etária aos 40 anos.
É frequente, no entanto, que este processo envolva todos os dentes da mandíbula, e mais raramente os superiores. Vai gradativamente tomando todo o osso ao redor das raízes como flocos de algodão. Também não dói e nem maligniza, não apresenta sinais clínicos e nem se precisa fazer os canais dos dentes. Neste caso se chama Displasia Cemento Óssea Florida. 
Deve-se acompanhar minuciosamente esses pacientes e orientar para não se ter cárie, canais infectados, doença periodontal e outras situações que possam levar bactérias neste osso, pois aí teremos a evolução para a mutilante Osteomielite Secundária muito difícil e sofrido de ser tratada com sucesso. 

REFLEXÃO FINAL

Ao explicar tudo isto ao paciente branco e de olhos azuis, portador da doença, ele ficou atônito. Não acreditando que era acometido pela doença, pois jamais achou que haveria genes da etnia negra em sua formação familiar. Queria saber se tinha herdado a doença, foi esclarecido que não, que a possível mutação ocorreu de forma aleatória e pontual nos seus tecidos.
Dias depois, refeito da surpresa, pediu desculpas pela forma atípica que se comportou ao saber o diagnóstico e disse: - Doutor, aprendi que todos somos iguais nesta vida, ninguém é superior a ninguém! Parabenizei pela reflexão e tomada de posição. Lembrei de meu pai dizendo: - Filho, a vida é uma escola!