Do Mirante do Adamastor, em Lisboa, dá para ver o rio Tejo. Caso leia "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago (1922-2010), também dá para contemplar o fantasma de Fernando Pessoa refletindo sobre o fim, a velhice e a solidão. João Correia Filho, 54 anos, visitou este ponto turístico após ler o livro. "A obra te sensibiliza para aquele lugar. Faz se sentir mais humano", afirma. É isso que ele chama de turismo literário.
Essa modalidade, segundo ele, permite que os viajantes revisitem destinos sob novos olhares ou obtenham experiências mais reflexivas e profundas a partir de sua bagagem de leitura.
Além disso, o turismo literário oferece uma escapatória da lógica de produção e acúmulo de lugares. "Susan Sontag [escritora, filósofa e ensaísta americana] dizia que fotografar em viagem é uma extensão do trabalho. Produzimos tanto e somos tão explorados que, quando viajamos, nos impomos mais um trabalho para fazer", diz João Correia.
Para ele, a literatura é um antídoto para esse sistema. "A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos. A literatura permite voltar para o mesmo lugar infinitas vezes, com olhares diferentes. Isso tira a lógica capitalista do acúmulo de fotos, lugares e souvenirs de plástico", afirma.
LISBOA
Um exemplo está em Lisboa, no Terreiro do Paço (hoje conhecido como praça do Comércio). O local é cenário da obra "Nas Tuas Mãos", da escritora portuguesa Inês Pedrosa. O romance intercala os discursos de três gerações: Jenny, a avó, escreve um diário sobre um amor não correspondido; Camila, a mãe, rememora a militância política por meio de um álbum de fotos; e Natália, a filha, escreve cartas à avó sobre os conflitos com a mãe e a busca pela felicidade.
João afirma que a leitura transforma a praça turística num lugar carregado de peso histórico e emocional. Não é uma visita fácil. "Visitar o lugar com essa atmosfera criada pela autora é muito prazeroso, mas é forte. É uma cena triste", relembra João.
SEVILHA
Sevilha, na Espanha, também é um terreno fértil para o turismo literário. João percorreu o local acompanhado pela obra "Sevilha Andando", de João Cabral de Melo Neto.
O autor pernambucano escreveu o livro de poemas durante os anos em que morou na Espanha. Ele explica que a paixão do autor pela cidade fica muito clara nos poemas e, por isso, a experiência se torna mágica e emocionante.
Uma das casas de Pablo Neruda: La Sebastiana (Foto: Divulgação)
Destinos populares incluem as casas de Pablo Neruda no Chile, a estação King's Cross de Harry Potter na Inglaterra, e livrarias históricas em Dublin, atraindo viajantes por imersão cultural.
1. Reino Unido e Irlanda (Berço de Clássicos)
Londres, Inglaterra: Visite a Plataforma 9 ¾ na estação King's Cross (Harry Potter) ou explore os cenários de Sherlock Holmes em Baker Street.
Dublin, Irlanda: Cidade reconhecida pela Unesco como "Cidade da Literatura", com destaque para o Museu da Literatura da Irlanda e pubs frequentados por Joyce e Yeats.Stratford-upon-Avon, Inglaterra: Cidade natal de William Shakespeare, onde é possível visitar sua casa e teatro.
2. Europa Continental
Paris, França: A cidade que inspirou inúmeros autores, desde Os Miseráveis de Victor Hugo até os cenários de Hemingway.
Lisboa, Portugal: Visita à Casa Fernando Pessoa, onde o poeta viveu, além de cafés históricos frequentados por intelectuais.
Romênia: O Castelo de Bran, frequentemente associado ao Drácula de Bram Stoker.
3. América do Sul e Brasil
Chile (Santiago, Valparaíso, Isla Negra): Casas de Pablo Neruda que funcionam como museus, oferecendo um mergulho na vida do poeta vencedor do Nobel.
Itabira, Brasil (Minas Gerais): Roteiro focado na obra e vida de Carlos Drummond de Andrade.
Rio de Janeiro, Brasil: Tours literários pela Biblioteca Nacional e locais que aparecem na obra de Machado de Assis, conforme destaca o Rio Literário.
A experiência não se limita a capitais europeias ou destinos consagrados. Em Iguape, litoral de São Paulo, João encontrou no conto "A Pedra que Cresce", do escritor e filósofo Albert Camus (1913-1960), uma chave para entender a Festa do Senhor Bom Jesus. Camus visitou a cidade ao lado de Oswald de Andrade e imortalizou o ritual numa ficção. A celebração tem quase 400 anos de tradição e João a prestigiou tendo o conto como ferramenta. Ele descreve a experiência como enriquecedora e a leitura como uma ferramenta para ampliar a compreensão do evento.
A própria capital paulista guarda diferentes camadas literárias. O centro, por exemplo, guarda rastros de obras de Oswald de Andrade (1890-1954). Já o bairro Higienópolis é o cenário de "Amar, Verbo Intransitivo", de Mário de Andrade (1893-1945). Antônio de Alcântara Machado (1901-1935) dedicou uma coletânea de contos intitulada "Brás, Bexiga e Barra Funda" aos bairros homônimos.
"A Pedra que Cresce" em Iguape é uma famosa lenda religiosa ligada ao Senhor Bom Jesus de Iguape, retratando uma rocha na "Gruta do Senhor" que supostamente aumentaria de tamanho, imortalizada pelo escritor Albert Camus no conto homônimo de 1957 após visitar a cidade em 1949.
Destaques da Lenda e Tradição
O Milagre: Diz a tradição que a imagem do Senhor Bom Jesus foi banhada sobre uma laje em uma gruta, e essa pedra passou a crescer continuamente, tornando-se objeto de grande devoção.
O Conto de Camus: O prêmio Nobel Albert Camus visitou a Festa do Bom Jesus em agosto de 1949 e descreveu a fé e a pedra no conto "La Pierre qui pousse" ("A Pedra que Brota" ou "A Pedra que Cresce") no livro O Exílio e o Reino.
Locais importantes: A gruta onde a pedra está localizada (Gruta do Senhor) fica próxima a um parque, e há uma rua chamada Albert Camus em homenagem ao escritor na cidade.
Fé popular: Milhares de romeiros visitam o Santuário do Senhor Bom Jesus de Iguape durante a "Festa de Agosto", celebrando as tradições religiosas centenárias da cidade.
Do Mirante do Adamastor, em Lisboa, dá para ver o rio Tejo (Foto: João Correia/Divulgação)
João Correia Filho, jornalista e editor, construiu a carreira na intersecção entre literatura e reportagem. Obcecado por livros desde a adolescência, ele cursou jornalismo para se manter perto da paixão. Passou a percorrer o mundo produzindo pautas e foi em Lisboa que surgiu a ideia para criar seu primeiro guia de turismo literário.
João entrou numa livraria e encontrou uma obra de Fernando Pessoa (1888-1935) que não conhecia. O poeta escreveu o livro "Lisboa: O que o Turista Deve Ver" nos anos 1920, quando percorreu e escreveu sobre a cidade preocupado com o esquecimento de Portugal pelo viajante europeu.
Foi a partir deste material que o jornalista decidiu criar o guia. Lançado em 2011, Lisboa em Pessoa venceu o Jabuti na categoria Turismo em 2012 e abriu caminho para mais três obras: os guias literários "À Luz de Paris", "São Paulo, Literalmente" e "Buenos Aires, Livro Aberto". Este último, aliás, ele aponta como o destino mais rico para o turismo literário.
"Existe uma relação dos autores com a cidade que é absurda. Ernesto Sabato te leva a passeios incríveis pela cidade. Jorge Luis Borges [1899-1986] e Julio Cortázar [1914-1984] tem histórias que se passam no centro e em alguns bairros. Fui muitas vezes e ainda quero voltar", afirmou.