O presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Rafael Cervone, criticou duramente a extinção da chamada "taxa das blusinhas" e afirmou que medidas como a redução da jornada de trabalho no atual modelo 6x1 podem trazer impactos negativos para a economia, a indústria e o mercado de trabalho brasileiro. Ele esteve em Bauru na quinta-feira (14), em reunião de trabalho na regional do Ciesp, dirigida por Gisela Casarin Fedel.
As declarações foram dadas durante entrevista ao JC/JCNET sobre o cenário econômico nacional e os desafios enfrentados pelo setor produtivo. Segundo Cervone, a redução da taxação sobre produtos importados representa uma concorrência desleal para a indústria brasileira. Ele argumenta que o setor nacional já arca com elevada carga tributária e que a diminuição do imposto para produtos estrangeiros prejudica a competitividade das empresas brasileiras.
"A indústria brasileira concorre não apenas com empresas estrangeiras, mas com governos que subsidiam suas produções. Não faz sentido reduzir impostos para produtos importados enquanto o empresário brasileiro continua pagando uma carga tributária elevada", afirmou.
O presidente do Ciesp também destacou preocupações com a entrada de produtos asiáticos no país, citando casos de subfaturamento, pirataria e mercadorias que, segundo ele, não atenderiam aos mesmos padrões exigidos em mercados como Europa e Estados Unidos. "É uma questão de isonomia. Se reduz para o importado, precisa reduzir também para quem produz aqui, gera emprego, renda e arrecadação", disse.
Outro ponto criticado por Cervone foi a proposta de redução da jornada de trabalho no modelo 6x1. Para ele, a mudança pode elevar custos operacionais e gerar aumento da informalidade e do desemprego. O dirigente defende que as regras trabalhistas sejam negociadas diretamente entre empresas e sindicatos, considerando as especificidades de cada setor.
"Quando você transforma isso em lei, tira a autonomia das negociações coletivas. Existem atividades que não podem funcionar dentro de uma regra única, como hospitais, aviação e postos de combustíveis", afirmou. Cervone alertou ainda para os impactos financeiros da medida em setores intensivos em mão de obra. "Em alguns hospitais, por exemplo, o aumento do quadro de funcionários pode chegar a 33%. Isso inviabiliza a operação com o mesmo faturamento", declarou.
Durante a entrevista, o presidente do Ciesp voltou a defender políticas de reindustrialização, previsibilidade econômica e redução da taxa de juros. Segundo ele, o Brasil precisa de um projeto de longo prazo para fortalecer a competitividade nacional. "O país precisa deixar de empurrar problemas para frente e construir um plano de Estado, com segurança jurídica e previsibilidade para atrair investimentos", afirmou.
Ao comentar o potencial econômico do Interior paulista, Cervone ressaltou a força do agronegócio aliado à indústria e citou setores como bioenergia, indústria aeroespacial, combustíveis sustentáveis e tecnologia ligada a drones como áreas promissoras para o crescimento econômico brasileiro.
O dirigente também demonstrou preocupação com a atualização da NR-1, norma que trata dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Segundo ele, a falta de critérios objetivos pode gerar insegurança jurídica e interpretações divergentes durante fiscalizações. "Precisamos de regras claras e amplamente discutidas. Hoje existe muita subjetividade, e isso preocupa o setor produtivo", concluiu.