Já escrevi aqui, mais de uma vez, sobre aquilo que considero o grande problema do candidato da extrema direita Flávio Bolsonaro: a dificuldade permanente de sustentar uma imagem de honestidade pública diante de tantos episódios controversos. E isso não começou agora. Sempre disse que Lula e o PT enxergam nele um adversário eleitoral ideal justamente porque sua trajetória política vem acompanhada de questionamentos que nunca desapareceram do debate público.Rachadinhas, relações nebulosas e explicações que frequentemente parecem desafiar a lógica mais básica.
Afinal, não é exatamente comum uma loja de 10 metros quadrados vender mais do que uma fábrica inteira da Kopenhagen. Mas há quem trate isso como simples coincidência empresarial. O brasileiro, definitivamente, tem uma capacidade admirável de normalizar o improvável.O que chama atenção agora é outro ponto: Flávio saber que os celulares de Vocaro estavam sob posse da Polícia Federal, negar conhecer o homem e, pouco tempo depois, aparecer um áudio chamando-o de “irmão”. A pergunta não é nem política. É lógica. Em tempos de investigação federal, negar proximidade para depois surgir em intimidade gravada parece menos estratégia e mais imprudência. Política brasileira, às vezes, parece escrita por roteiristas preguiçosos, daqueles que esquecem o que colocaram no episódio anterior. E aqui vale lembrar outra coisa que também já escrevi anteriormente, quando muita gente ironizava: Lula poderia até ser rejeitado por parte do país, mas jamais deixou de ser visto internacionalmente como um estadista.
Concordando ou não com ele, gostando ou não do PT, existe uma diferença entre um político local e alguém que consegue circular entre as maiores lideranças do planeta sendo tratado como protagonista político.A pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem apenas confirmou isso. O levantamento mostrou que 70% dos brasileiros tomaram conhecimento do encontro entre Lula e Donald Trump nos Estados Unidos, e uma parcela significativa passou a enxergar Lula de maneira mais positiva após a visita. Mais do que isso: a aprovação do governo voltou a subir e a desaprovação caiu, especialmente entre eleitores independentes, justamente o grupo que costuma decidir eleições.É curioso observar parte da direita brasileira tentando explicar como Lula saiu fortalecido justamente ao aparecer ao lado de Trump.
Durante anos venderam a ideia de que o presidente brasileiro era um “pária internacional”. Bastou uma reunião na Casa Branca para a tese evaporar mais rápido que promessa de campanha em segundo mandato.Política é uma ciência inexata. Estamos, ao mesmo tempo, perto e longe da eleição. Mas existe algo evidente no cenário atual: se apenas uma visita internacional já ajudou Lula a recuperar terreno nas pesquisas, imagine o efeito de novos desgastes envolvendo o principal sobrenome do bolsonarismo.Porque, no fim, eleições não são vencidas apenas por quem possui apoiadores apaixonados. Muitas vezes elas são decididas pela rejeição que cada candidato consegue evitar. E nisso, convenhamos, Flávio Bolsonaro parece insistir em colaborar com os adversários.