A artista Luana Piovani declarou que evangélico é "o que há de pior no ser humano", tentando transformar uma opinião agressiva em diagnóstico social. Mas uma frase de efeito não substitui a realidade e a realidade quando observada desmonta essa acusação pela raiz. Os dados do IBGE não dizem que os evangélicos representam degradação moral alguma. Dizem outra coisa: que eles compõem uma parcela expressiva, crescente, produtiva e profundamente enraizada no Brasil real, formada por milhões de homens e mulheres presentes em todas as camadas da sociedade - nas periferias e nos centros urbanos, nas favelas e nos condomínios de alto padrão, nas pequenas cidades do interior e nas grandes capitais, entre trabalhadores simples, profissionais liberais, empresários, acadêmicos, servidores públicos, famílias ribeirinhas, comunidades esquecidas e também nos círculos mais influentes da vida nacional. O povo evangélico não é uma caricatura social; é uma presença ampla, diversa e incontornável na formação humana, cultural e espiritual do país.
Quando o Rio Grande do Sul foi devastado pelas enchentes, o que se viu não foi a caricatura arrogante criada por celebridades ressentidas. Viu-se igreja abrindo portas. A Junta de Missões Nacionais dos Batistas enviou voluntários, carretas, alimentos e atendimento de saúde. Igrejas de várias denominações recolheram donativos, organizaram lavanderias, acolheram famílias, distribuíram comida, água, roupa, remédio e esperança. Enquanto as estruturas públicas, pesadas por natureza, ainda calculavam rotas, cristãos comuns já estavam limpando lama, carregando colchões, socorrendo, alimentando, abraçando desconhecidos e chorando com os que perderam tudo.
Nas ruas onde a dependência química destrói corpos e famílias, há projetos cristãos recebendo gente que o mundo descartou. A Cristolândia e tantas comunidades terapêuticas ligadas as igrejas evangélicas, cuidam de pessoas feridas pelo álcool, pelo crack, pela solidão e pela miséria moral que ninguém resolve com discurso bonito. Pode-se discutir modelos e políticas públicas, mas não se pode apagar o fato de que quando o Estado falha, a igreja permanece. Também na Amazônia, nas periferias, nos presídios, nos hospitais, nos abrigos e nas noites frias das grandes cidades, há evangélicos servindo sem câmera, sem contrato publicitário e sem aplauso. São pastores que enterram filhos dos outros, missionários que atravessam rios, mulheres que cozinham para multidões, jovens que madrugam em campanhas de socorro, profissionais que oferecem consulta, escuta e cuidado gratuitamente. Chamar essa multidão de "o pior do ser humano" é preconceito religioso em estado bruto.
A agressão não veio apenas do entretenimento. Em 7 de fevereiro de 2026, em Salvador, durante a comemoração dos 46 anos do PT, o presidente Lula afirmou em tom de cobrança: "90% dos evangélicos ganham benefícios do governo. Precisamos ir para lá conversar com eles". Noventa por cento? A frase reduziu uma comunidade de fé a uma massa dependente do Estado, como se a igreja fosse um curral social à espera de condução política. Além de ser uma inverdade caluniosa, uma generalização ofensiva, a declaração revelou uma visão de manobra: procurar os evangélicos não por reconhecer neles dignidade, consciência e fé, mas por tratá-los como pessoas que recebem ajuda do governo e por isso, deveriam demonstrar algum tipo de gratidão política. Isso é grave, porque benefício social não é favor de governo, não é moeda de troca eleitoral, é dever do Estado custeado pela própria sociedade para socorrer quem precisa, sem exigir submissão ideológica em troca.
Isso precisa ser respondido com firmeza. A igreja evangélica brasileira não é braço de governo. Particularmente entre os batistas, há um princípio histórico inegociável: "a separação entre Igreja e Estado". A igreja respeita autoridades, ora pela nação e serve ao próximo; mas pertence a Cristo. As igrejas evangélicas não vivem do povo; vivem para servir o povo. Alimentam famílias, visitam enfermos, amparam viúvas, acolhem órfãos, enfrentam vícios, socorrem calamidades, alfabetizam, aconselham, capacitam, consolam e reconstroem biografias quebradas. Fazem isso sustentadas pela fidelidade, amor e generosidade de seus membros.
O Brasil precisa abandonar essa máquina de dividir brasileiros: crentes contra descrentes, ricos contra pobres, brancos contra negros, homens contra mulheres, campo contra cidade, igreja contra sociedade: essa engenharia da suspeita corrói a nação e normaliza a mentira. Desumanizar um povo inteiro é covardia. Jesus avisou que seus discípulos seriam odiados, ainda que fizessem o bem. Portanto, a igreja não deve se surpreender, mas também não deve se calar. O pior no ser humano não é o evangélico, absolutamente; o pior no ser humano é a mentira, a manipulação, o Pecado que posa de consciência superior diante daqueles que apenas servem em silêncio, todos os dias.