09 de maio de 2026
OPINIÃO

A mãe, da mãe, da mãe, da mãe

Por Claudia Zogheib | A autora é psicanalista, especialista pela USP – Departamento de Psicologia, Psicóloga Clínica formada pela USC, responsável pelas páginas @zogheibclaudia, @cinemaeartenodiva, @auguri_humanamente
| Tempo de leitura: 2 min

A vida é aquela coisa atropelada que passa muito rápido.

Ser mãe é uma das experiências mais íntimas e transformadoras que uma mulher pode vivenciar.

Eu não diria somente pelas mudanças corporais, porque não é através do gestar corpóreo que se torna mãe, mas pela disponibilidade interna em abrir espaço para o outro que chega, podendo ser também pela gravidez.

Moldamos esta rica experiência a cada dia, deixando vir aquele que chega para nos ensinar sobre maternidade, e trazemos as experiências familiares vividas entre gerações, lugar onde nos constituímos e que foi nossa primeira vivência emocional.

Minha tataravó chegou ao Brasil em meados de 1865 trazendo em si uma rica história de sobrevivência e persistência. Dela nasceram muitos, e cada vez mais me dou conta do quanto a maternidade, antes de tudo, é uma escolha diária que nos proporciona aprender, ensinar, transformar, maturar, trocar.

Cada vez que vejo a foto de antepassados eu me remeto a palavra força e resistência que, entre tantos significados, foi na maternidade que as famílias se multiplicaram, paradigmas que expressam mais do que tudo, a capacidade de abrir espaço para o outro.

Maternidade é também um lugar de responsabilidade e exaustão que se apresenta na trama diária nos pedindo a concretização do melhor de nós mesmas.
Winnicott foi um pediatra e psicanalista britânico que revolucionou a visão sobre a maternidade ao desmistificá-la. Na “mãe suficientemente boa” e “na necessidade de adaptação às necessidades do bebê”, ele defendeu uma maternidade que não é um instinto automático e perfeito, mas um processo de construção que exige dedicação, sustentação, física e emocional.

A mãe suficientemente boa é aquela que não está pronta, mas aprende a partir de seus acertos e erros, e sobretudo, é atenta e está disponível.

A mãe, da mãe, da mãe, da mãe em uníssono grito falam, a partir da individualidade de cada uma, o quanto esta função se qualificou a partir do caos individual e social, e na efervescência cultural da época de cada uma, enquanto função materna, aconteceu através dos pequenos detalhes e da entrega que foi possível a cada uma.

Com tantos abusos, feminicídios, cobranças externas de ter que se encaixar, enfim, nesta ciranda de exaustão e scripts, estão as mães, que em meio ao caos, gestaram seus descendentes, deram nomes, sobreviveram. Pelos seus filhos, desbravaram o mundo.

Neste dia das mães agradeço as ancestrais, minhas e de meus filhos - à Marília, Auta, Rosa, Rita, Florinda, Mary, Orminda, Auta, Catarina, Maria Rosa, Newtonina, mas principalmente, agradeço a meus filhos que, além do amor que vivenciamos a cada dia, me geraram como mãe, me aceitaram, e proporcionaram eu viver aquilo que somente eu sei dizer sobre e com eles, e que qualquer mãe, mesmo entre luz e sombra, saberá dizer sobre os seus e do que eu estou falando.

Feliz dia das Mães a todas!
Música “Dive” - Olivia Dean.