03 de maio de 2026
OPINIÃO

Jurandyr Bueno Filho e a cidade como obra coletiva

Por Adalberto Retto Júnior | Doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza - Itália
| Tempo de leitura: 5 min

No contexto do IV Projeto Charrette do Unisagrado, honra-me participar, como convidado, da celebração dedicada à trajetória do arquiteto Jurandyr Bueno. A ocasião oferece oportunidade singular para revisitar uma dimensão fundamental da história recente de Bauru: aquela em que arquitetura, planejamento e vida urbana se entrelaçam na construção da cidade. Nome incontornável da paisagem arquitetônica local, Jurandyr deixou marcas que ultrapassam o edifício isolado e alcançam o espaço público, a memória coletiva e a própria identidade urbana bauruense.
Nesse percurso, um momento decisivo merece destaque: sua participação no Plano Diretor de Bauru de 1967. Revisitar esse documento significa compreender o encontro entre duas histórias simultâneas — a transformação urbana do município e a formação de um profissional que se tornaria referência local. O plano não foi apenas marco técnico do planejamento municipal. Assinalou também o momento em que Jurandyr Bueno passou a afirmar-se como agente relevante da modernização urbana da cidade.
A partir dessa experiência, sua atuação ultrapassou o campo estritamente profissional e projetou-se na esfera pública, onde viria a exercer papel importante como técnico comprometido com diretrizes urbanas e administrativas voltadas ao desenvolvimento de Bauru.
O Plano Diretor foi elaborado pelo Centro de Pesquisa e Estudos Urbanísticos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). Em meio ao acelerado crescimento das cidades brasileiras nas décadas de 1950 e 1960, a instituição assumiu papel pioneiro ao aproximar universidade e poder público, oferecendo suporte técnico a municípios que buscavam orientar seu crescimento com racionalidade, visão de futuro e capacidade administrativa.
Bauru integrou esse conjunto de experiências de maneira particularmente significativa. Já se afirmava como centro regional estratégico do interior paulista, articulando comércio, serviços, circulação e expansão urbana. Sua histórica condição de entroncamento ferroviário, somada às novas demandas trazidas pelo crescimento populacional e econômico, tornava indispensável pensar seu futuro por meio de instrumentos modernos de planejamento.
A coordenação geral dos trabalhos coube ao professor Brenno Cyrino Nogueira. No plano local, a interlocução institucional esteve sob responsabilidade do engenheiro José da Silva Martha Filho, durante a gestão do prefeito Nuno de Assis. Essa parceria entre universidade pública e administração municipal revela compreensão avançada para a época: cidades de porte médio já exigiam conhecimento técnico, continuidade administrativa e estruturas permanentes de gestão.
Convém lembrar que Bauru se movia, naquele momento, em sintonia com o que havia de mais avançado no urbanismo brasileiro. Em 1965, Jaime Lerner participou da criação do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), organismo que mais tarde alcançaria reconhecimento nacional e internacional. Guardadas as diferenças de escala e contexto, a defesa, em Bauru, de um Escritório de Planejamento permanente revelava afinidade com essa mesma agenda inovadora.
Ou seja, Bauru não se encontrava à margem dos debates do período. Ao contrário, inseria-se entre as experiências mais qualificadas do planejamento urbano brasileiro ao compreender que planos diretores exigiam institucionalidade própria, equipes técnicas permanentes e capacidade de converter diretrizes em ação pública.
Essa dimensão institucional talvez constitua a contribuição mais sofisticada do Plano Diretor de 1967. O documento afirmava com clareza que o planejamento não se encerrava na elaboração do plano. Deveria converter-se, isto sim, em atividade permanente da administração municipal.
Ainda hoje, muitas cidades enfrentam justamente essa dificuldade: elaboram planos, mas não constroem estruturas capazes de implementá-los. Bauru, em 1967, já era chamada a enfrentar esse desafio com apoio da universidade pública e com visão notavelmente avançada.
É nesse contexto que surge a participação de Jurandyr Bueno. Nascido em Bauru e formado pela própria FAU-USP em 1967, integrou a equipe técnica responsável pelo plano. Sua presença tinha valor simbólico e concreto: um jovem arquiteto bauruense, formado na principal escola de arquitetura do país, retornava à sua cidade trazendo consigo o repertório intelectual e técnico mais atualizado de seu tempo.
Embora sua trajetória viesse a afirmar-se sobretudo no campo da arquitetura, sua passagem pelo Plano Diretor revela sensibilidade para as questões urbanas e para a dimensão pública do projeto. Seu percurso profissional demonstraria, nos anos seguintes, que arquitetura e cidade não se separam. Em diversas obras, soube articular de modo exemplar edifício, infraestrutura, paisagem e espaço coletivo.
Ao longo das décadas seguintes, Jurandyr Bueno consolidou-se como um dos mais importantes arquitetos de Bauru, à frente de escritório atuante e responsável por obras que contribuíram decisivamente para qualificar a paisagem urbana local.
Entre essas realizações, destaca-se o Parque Vitória Régia, obra emblemática na memória coletiva da cidade. Ali, arquitetura, paisagem, infraestrutura e espaço público se articulam de maneira singular, produzindo uma das imagens mais reconhecíveis de Bauru. Mais do que equipamento urbano, o parque tornou-se símbolo de pertencimento e representação — um verdadeiro cartão-postal da cidade.
Se o Plano Diretor revela Jurandyr pensando Bauru, o Parque Vitória Régia revela Jurandyr ajudando a desenhar sua imagem pública.
Jurandyr Bueno foi também intérprete da chamada Escola Paulista de Arquitetura. Em sua obra reconhecem-se valores caros a essa tradição: clareza estrutural, rigor construtivo, valorização do concreto aparente, síntese formal e entendimento da arquitetura como fato coletivo.
A própria materialidade do Parque Vitória Régia reforça essa leitura. O uso do concreto aparente, particularmente presente nas aletas e elementos estruturadores do conjunto, não se reduz a uma escolha estética. Expressa uma ética construtiva fundada na clareza estrutural, na economia de meios e na afirmação da infraestrutura como linguagem.
Ao recordar sua participação no Plano Diretor de 1967, percebe-se que ali já se anunciavam elementos que marcariam sua trajetória: compromisso com a cidade, compreensão da dimensão pública do espaço e confiança no projeto como instrumento de transformação.
Essa combinação entre visão institucional e qualidade projetual ajuda a compreender o ambiente em que Jurandyr se formou e atuou. Pertenceu a uma geração que via a arquitetura não apenas como profissão liberal, mas como contribuição concreta para a vida urbana.
Homenagear Jurandyr Bueno, portanto, é homenagear mais do que um autor de obras relevantes. É reconhecer alguém que ajudou a dar forma material à cidade, que traduziu em arquitetura valores públicos duradouros e que soube trazer para Bauru o melhor da cultura arquitetônica brasileira de seu tempo.
É também ocasião para cumprimentar a instituição Unisagrado, que, ao acolher e preservar seu acervo, presta relevante serviço à memória cultural da cidade. Ao reunir documentos, desenhos e registros de sua produção, permite que novas gerações conheçam, estudem e valorizem a contribuição de Jurandyr Bueno para Bauru.
Alguns profissionais constroem edifícios. Outros ajudam a construir a identidade de uma cidade. Jurandyr Bueno pertence a esse segundo e raro grupo.