03 de maio de 2026
COLUNISTA

O dia do trabalho

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

O trabalho é uma das formas mais concretas pelas quais o ser humano responde a Deus no mundo. Antes de ser salário, cargo, carreira ou reconhecimento, é vocação. Na Bíblia, o labor aparece desde o princípio da criação, quando Deus colocou o homem no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. Portanto, trabalhar não nasceu da ganância nem da Queda. O pecado feriu o trabalho, tornou-o pesado, cansativo e muitas vezes injusto, mas não destruiu sua dignidade original. Sua raiz permanece santa, porque o homem foi criado para servir, produzir e cooperar com Deus em sua criação. Uma das maiores perdas da vida acontece quando alguém abandona esse sentido e desiste antes mesmo de tentar. Depois de muitas frustrações, o fracasso antigo começa a parecer uma sentença para o futuro, e muitos passam a tratar como impossível aquilo que ainda poderia ser enfrentado com coragem, fé e responsabilidade.

Ontem no chamado Dia do Trabalho, o mundo novamente refletiu sobre o valor do labor. No Brasil entretanto, parte da cultura política em Brasília insiste em tratar um tema sério com lógica populista, como se fosse possível reduzir jornada, manter salários, preservar empregos e não repassar custos para ninguém. A CCJ da Câmara já aprovou a admissibilidade de propostas que miram o fim da escala 6x1 e discutem a redução da jornada semanal, inclusive de 44 para 36 horas. O problema é que uma mudança desse tamanho não pode ser vendida como mágica social. Se o trabalhador fosse remunerado apenas por hora, a conta seria mais direta. Mas obrigar o empregador a pagar o mesmo por menos tempo de trabalho, sem ganho real de produtividade, tende a pressionar empresas, estimular informalidade, encarecer produtos e reduzir contratações. Uma medida anunciada como proteção pode virar mais uma bomba no colo do próprio brasileiro. Nações prosperam quando valorizam o trabalho, a responsabilidade, a produtividade e a liberdade econômica. Quando o Estado tenta regular tudo e sufoca os ajustes naturais do mercado, ele não cria riqueza por decreto. Muitas vezes apenas distribui custos que alguém, inevitavelmente, terá de pagar.

A Escritura ensina que Deus abençoa a diligência e corrige a ociosidade. Provérbios exalta as mãos que trabalham. Paulo ordena que o cristão trabalhe com tranquilidade e coma o próprio pão. Aos colossenses ele afirma que tudo deve ser feito de coração, como para o Senhor. Isso muda o sentido de cada tarefa honesta. A mesa arrumada, o paciente atendido, a aula preparada, a roupa lavada, a terra cultivada, a venda justa, a planilha organizada e o filho cuidado podem ser recebidos por Deus como serviço santo quando feitos com fidelidade.

Foi essa verdade que a Reforma resgatou. Lutero rejeitou a ideia de que apenas o trabalho religioso fosse sagrado. Para ele, o trabalhador que cumpre honestamente sua função serve a Deus naquele lugar. Calvino também combateu a separação entre vida espiritual e vida comum, lembrando que os homens foram criados para ocupar-se do trabalho como sacrifício agradável ao Senhor. Lavar louças e pregar a Palavra são tarefas diferentes, mas no desejo de agradar a Deus nenhuma ocupação honesta é desprezada. Deus não mede apenas a aparência do ofício. Ele vê o coração do trabalhador. Isso nos livra de dois erros. O primeiro é idolatrar o trabalho, como se nossa identidade dependesse do sucesso, do dinheiro e da produtividade. Essa distorção transforma trabalho em escravidão. O segundo é desprezar o trabalho comum, como se Deus só estivesse presente em templos e não na oficina, no consultório, na escola, na cozinha, no comércio, na indústria, no campo e no lar. A visão bíblica é mais profunda. Toda a vida pertence a Deus. Todo dom vem de Deus. Toda força, inteligência, oportunidade e porta aberta dependem de sua providência.

Por isso, quem trabalha não deve dizer com soberba: "consegui tudo com minhas mãos". Também não deve dizer com covardia: "não há nada que eu possa fazer". A primeira frase esquece a graça. A segunda abandona a responsabilidade. O caminho cristão une diligência e dependência. Labutamos com seriedade, mas sabemos que o sustento vem das boas mãos do Senhor. Agimos com coragem, mas reconhecemos que o fruto pertence a Deus.

O trabalho, quando rendido a Deus, deixa de ser apenas sobrevivência e se torna mordomia. É o altar cotidiano onde a fé desce das palavras para as mãos. Deus não despreza nenhum labor honesto. Ele coroa com bênção o esforço humilde, sustenta o trabalhador fiel e transforma tarefas simples em louvor.