03 de maio de 2026
COLUNISTA

'Eu sou o caminho, a verdade e a vida'. (Jo 14,6)

Por Dom Caetano Ferrari |
| Tempo de leitura: 3 min
Bispo Emérito de Bauru

A liturgia deste 5º domingo da Páscoa nos convida a contemplar uma verdade que sustenta a fé da Igreja desde o início: Jesus nunca nos abandona. Mesmo quando não o vemos, Ele permanece presente, conduzindo, fortalecendo e sustentando o seu povo.

Na Primeira Leitura (At 6,1-7), vemos a Igreja nascente enfrentando desafios concretos. O número de discípulos cresce, surgem tensões internas e a necessidade de organização se impõe. As viúvas de origem grega estavam sendo esquecidas, e isso gera murmuração. Os apóstolos, iluminados pelo Espírito, não ignoram o problema. Pelo contrário, discernem uma solução: escolhem sete homens cheios do Espírito e de sabedoria para o serviço, enquanto eles permanecem firmes na oração e na Palavra. Esse episódio revela algo profundo: o crescimento da Igreja não é fruto apenas de esforço humano, mas da presença viva de Jesus. É Ele quem conduz sua Igreja, inspirando decisões, levantando servidores e organizando a comunidade. Quando o texto afirma que "a Palavra do Senhor se espalhava", está dizendo que o próprio Cristo continua agindo. A Igreja cresce porque Jesus está com ela. Ele não abandona sua comunidade, mesmo em meio às dificuldades.

Na Segunda Leitura (1Pd 2,4-9), São Pedro aprofunda ainda mais essa certeza. Ele apresenta Cristo como a "pedra viva", rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus. E nós, unidos a Ele, também nos tornamos "pedras vivas", formando um edifício espiritual. Ou seja, não estamos sozinhos: fazemos parte de algo maior, sustentado pelo próprio Cristo. São Pedro também nos lembra que somos "raça escolhida, sacerdócio do Reino, nação santa". Essa dignidade não vem de nós mesmos, mas de Jesus que nos chama e nos envia. Somos escolhidos para anunciar as maravilhas de Deus, porque Ele está conosco. Não se trata de uma missão solitária, mas de uma participação na própria missão de Cristo. Ele continua anunciando através da sua Igreja. Ele continua chamando pessoas das trevas para a sua luz. Jesus não abandona aqueles que escolheu.

O Evangelho (Jo 14,1-12) nos coloca diante de palavras de consolo e esperança. Jesus sabe que seus discípulos ficarão abalados com sua partida e, por isso, diz: "Não se perturbe o vosso coração". Ele não está indo embora para nos deixar órfãos. Ao contrário, Ele vai preparar um lugar para nós na casa do Pai. Aqui está uma das mais belas revelações da fé cristã: Jesus não apenas nos mostra o caminho, Ele é o caminho. Ele não apenas fala da vida, Ele é a vida. E mais ainda: Ele prepara para nós um lugar e promete voltar para nos levar consigo. Isso significa que nossa história não termina no sofrimento nem na morte. Há uma morada preparada, há um destino de comunhão eterna. Ao mesmo tempo, Jesus afirma que permanece unido ao Pai e que suas obras continuam. E faz uma promessa surpreendente: aqueles que creem nele farão obras ainda maiores. Isso só é possível porque Ele continua presente. Sua ausência física não significa abandono, mas uma presença ainda mais profunda e universal.

Assim, olhando para as três leituras, podemos afirmar com convicção: é Jesus quem mantém a sua Igreja. É Jesus quem a faz crescer, mesmo em meio às dificuldades. É Jesus quem escolhe e envia seus discípulos. É Jesus quem prepara a morada eterna. É Jesus quem não abandona os seus ao poder da morte.

Em um mundo marcado por inseguranças, crises e incertezas, essa Palavra nos sustenta: não estamos sozinhos. Cristo caminha com sua Igreja. Ele guia, fortalece e conduz. Por isso, a nossa resposta deve ser a confiança. Como Ele mesmo disse: "Tende fé em Deus, tende fé em mim também". A fé nos faz permanecer firmes, mesmo quando não entendemos tudo. A fé nos faz continuar caminhando, porque sabemos em quem colocamos nossa esperança. Jesus nunca nos abandona. Essa é a certeza que ilumina o presente e abre o futuro.