02 de maio de 2026
CULTURA E CINEMA

O Diabo Veste Prada 2' busca ser novo marco cultural pop

da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
Miranda e Andy se reencontram na redação da Runway

Anne Hathaway caminha por Nova York com pressa, tão atrapalhada que quase é atropelada ao cruzar a rua. Em meio à correria, letreiros com fontes de ar casual, comuns em comédias e romances dos anos 2000, exibem os créditos iniciais. A sensação é de estar revendo "O Diabo Veste Prada", que começava com uma sequência muito parecida. Mas se há 20 anos a corrida estabanada de Hathaway acontecia ao som de "Suddenly I See", de KT Tunstall, agora são Lady Gaga, Miley Cyrus e Dua Lipa que desfilam na continuação.

Com estreia nesta quinta-feira (30), "O Diabo Veste Prada 2" pendura referência atrás de referência em seu guarda-roupa nostálgico, mas não deixa que o aceno ao passado defina a sua trama. Da mesma forma que o longa de 2006 se tornou um marco geracional justamente por capturar, de maneira afiada e glamorosa, a sua época, a sequência de 2026 quer ser ela própria um novo marco, atualizando sua história e personagens à luz das mudanças que abateram a cultura e a mídia nas últimas duas décadas.

Esse registro de uma época se faz presente, por coincidência, até mesmo no elenco. Se em 2006 o longa ajudou a projetar e também se aproveitou da ascensão meteórica de Hathaway e Emily Blunt, em 2026 a produção é alavancada por uma segunda era de ouro das atrizes -ambas se preparam para lançar dois dos principais blockbusters do ano, a primeira com "A Odisseia", de Christopher Nolan, e a segunda com "Dia D", de Steven Spielberg. E, apesar de seus diretores, é possível que "O Diabo Veste Prada 2" gere mais burburinho que eles. "As crianças estavam aguardando, as mulheres estavam aguardando, os homens gays estavam aguardando e os homens héteros também -no original, pela primeira vez ouvi de homens héteros que eles entendiam o que uma personagem minha sentia", brincou Meryl Streep no programa Good Morning America.

"A criatividade humana está sob ataque, em todos os setores e meios. Por isso foi divertido voltar e revisitar esses personagens diante dessa nova realidade", disse ainda, numa referência a uma trama que celebra a moda, a música e a escrita, num mundo que, pela força política ou do dinheiro, parece estar mais hostil à cultura e à liberdade criativa.

Por isso, mais do que um serviço a mulheres, gays, héteros e outros fãs nostálgicos, "O Diabo Veste Prada 2" quer soar contemporâneo e tecer o seu próprio retrato do mundo que o cerca. Lá atrás, o fenômeno "Harry Potter", Gisele Bündchen, copos de café do Starbucks e uma vilã inspirada na editora Anna Wintour, que ditava a moda à frente da Vogue, ancoravam a trama no coração cultural dos anos 2000. Agora, memes, Ozempic, inteligência artificial, gentrificação e big techs são temas que florescem nesta nova primavera de Miranda Priestly e Andy Sachs, personagens de Streep e Hathaway. Mais do que isso, o filme mostra como o capitalismo aspiracional que pautou a heroína em 2006 dá sinais de desgaste. Desgaste que já se anunciava nos últimos minutos do original, quando Andy abandona Miranda, antecipando a grande resignação, movimento pós-pandêmico em que muitos reavaliaram o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal.

A mensagem é forte no mercado editorial, tão afetado por revoluções tecnológicas e mudanças nos hábitos de consumo, e que serve de cenário para o primeiro e o segundo "O Diabo Veste Prada". Se em 2006 Andy era contratada para o emprego pelo qual "um milhão de garotas matariam", em 2026 ela volta à revista fictícia Runway para salvá-la de uma crise de imagem e vendas. A verba de US$ 300 mil para refazer um ensaio fotográfico por capricho de Miranda, no original, deu espaço a cortes de orçamento. Carros de luxo são substituídos por Uber, eventos em semanas de moda são desidratados e a edição física da Runway já é tão fina como uma folha de papel.