Há 250 anos, o escocês Adam Smith publicou um dos livros mais importantes da história. Até hoje, é lido, embora muitas vezes mal interpretado. Ele jamais imaginou a revolução que sua obra provocaria no mundo das ideias, da política e da economia. A frase mais famosa de "A riqueza das nações" resume a teoria do autor sobre o livre mercado e a "mão invisível": "Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da atenção que eles dedicam ao próprio interesse".
A "mão invisível" representa a ideia de que o mercado se autorregula através da competição e da defesa do interesse de cada um. Foi inusitada a revelação de que o homem comum, trabalhando para materializar seus próprios desejos e sonhos egoístas, contribuía para o bem-estar de todos. Essa "mão invisível" que empurra e guia os trabalhadores e os criadores de riqueza para colaborarem com a sociedade foi um achado revolucionário e, também, a melhor defesa da liberdade no âmbito econômico. Foi desconcertante descobrir que o motor do progresso não é o altruísmo nem a caridade, mas antes o egoísmo.
A doutrina liberal representou, desde a sua origem, a forma mais avançada de cultura democrática. É aquela que mais fez progredir, nas sociedades livres, os direitos humanos, a liberdade de expressão, o direito das minorias sexuais, religiosas e políticas, a defesa do meio ambiente e a participação do cidadão na vida pública.
Liberalismo sofre do que Vargas Llosa chamou de "doença infantil", que acomete certos economistas enfeitiçados pelo livre mercado como panaceia para resolver todos os problemas sociais. O liberal não quer suprimir o Estado, como o anarquista. Quer um Estado forte e eficaz. Isso não significa um Estado grande, empenhado em fazer coisas que a sociedade civil pode fazer melhor que ele num regime de livre concorrência.
O Estado deve garantir a liberdade, a ordem pública, o respeito à lei e a igualdade de oportunidades.
Embora reconheça que o mercado é frio, pois premia o sucesso e castiga o fracasso, Adam Smith foi sensível ao horror da pobreza: "Nenhuma sociedade pode ser próspera e feliz se a maioria dos seus membros é pobre e miserável". Aí sim, o Estado deve intervir, combatendo a miséria, mas também possibilitando oportunidades, financiando Educação para os que não podem pagar. Smith deixa claro que os trabalhadores bem pagos rendem mais e que com a sua prosperidade garantem a paz social.
O empresário sempre deve dar o exemplo aos que emprega: "Se o empresário for atento e parcimonioso, o trabalhador também tende a sê-lo, mas se o patrão é dissoluto e desordenado, o empregado, que estrutura o seu trabalho segundo o modelo que seu patrão lhe descreve também assim moldará sua vida". Condena o trabalho escravo por razões tanto morais como econômicas, pois é o trabalho mais improdutivo de todos porque não oferece incentivo nenhum para se esforçar.
Circula ainda a ideia errônea de que Adam Smith foi antes de mais nada um economista - ele é chamado de "pai da economia" -, coisa que o deixaria estupefato. Ele se autodeclarava filósofo da natureza humana e um tratadista dos sentimentos morais. Ele via a nobreza latifundiária e a aristocracia rentista como as piores inimigas da propriedade e de um governo para todos. "Propriedade", não no sentido de pertencimento, mas no de atitude adequada, justa e cuidadosa - apropriada - nas relações dos indivíduos como os outros.
Pouca coisa de "A Riqueza das Nações" tornou-se obsoleta, passados dois séculos e meio. "Não há arte que um governo aprenda tão rápido como a de tirar dinheiro do bolso dos contribuintes" - mais que atual. Considera que os impostos servem para dar mais equidade aos ganhos, cobrando mais dos ricos e menos dos pobres e evitando aqueles impostos que, por serem excessivos, convidam à evasão".