12 de abril de 2026
EM AVAÍ

Cerâmica ancestral resgata cultura Terena e emociona aldeia

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Lucas Melo
Coletivo Argila nas Mãos, da Aldeia Kopenoti

O resgate da cerâmica ancestral tem se tornado símbolo de identidade, memória e cura na Aldeia Kopenoti, na Terra Indígena Araribá, em Avaí (39 quilômetros de Bauru). Mais do que uma atividade artesanal, o projeto coletivo vem promovendo a reconexão do povo Terena com uma tradição histórica que, por muitos anos, permaneceu adormecida, além de proporcionar bem-estar e fortalecimento espiritual à comunidade.

O cacique Chicão Terena destaca que a iniciativa representa um marco para a aldeia ao aproximar anciãs, jovens e crianças de um saber ancestral que faz parte da essência do povo.

"Esse projeto tem uma importância muito grande para a comunidade. Ele traz o resgate da nossa ancestralidade e da prática cultural do trabalho com a cerâmica do povo Terena. Envolve as anciãs e a juventude, fortalecendo o convívio comunitário e a nossa espiritualidade", afirmou.

Segundo o líder indígena, o contato com a argila vai além da produção das peças e simboliza uma ligação profunda com a natureza e com os antepassados.

"A argila vem da terra, da natureza. Esse contato com o barro nas mãos traz uma espiritualidade muito forte, porque remete à ancestralidade e à nossa história", disse Chicão.

O artista plástico, ceramista e historiador indígena Irineu Nje'a Terena, idealizador do projeto, conta que o reencontro com a cerâmica foi também um reencontro com sua própria identidade como Terena.

"Eu comecei a fazer cerâmica para tentar iniciar esse resgate da nossa cultura, mas sentia que faltava alguma coisa. Quando fui ao Mato Grosso aprender as técnicas ancestrais com as oleiras, entendi que a minha cerâmica ainda não era Terena. Voltei e recomecei tudo", relatou.

A partir dessa experiência, Irineu passou a desenvolver oficinas dentro da aldeia com o objetivo, segundo ele, não de ensinar, mas de despertar um conhecimento já existente nas mulheres da comunidade.

"Eu falei para elas: eu não vim ensinar nada, eu vim despertar aquilo que vocês já sabem. Isso é de vocês. A cerâmica é uma tradição feminina do povo Terena", explicou.

O projeto também ganhou um espaço próprio com a construção de uma oca, a Oca dos Ancestrais, erguida para sediar as atividades e fortalecer o convívio coletivo.

Cerâmica como cura

Um dos relatos mais emocionantes veio de dona Nercidea Pio, de 86 anos, que atribui à cerâmica sua recuperação de um problema de saúde. Segundo ela, no dia em que chegou ao espaço do coletivo, estava debilitada, sem forças e sofrendo com dores e tonturas. "Eu cheguei aqui muito doente, bem fraca. Fiquei sentada só olhando. Aí minha filha me chamou para fazer. Quando peguei no barro e comecei a moldar, minha dor parou. Desapareceu. Isso aqui me curou", contou. A anciã afirma que, desde então, recuperou a disposição para realizar as tarefas diárias. "Cheguei em casa com coragem para fazer meus serviços. Aquela tontura e aquela dor sumiram tudo. Hoje estou curada", disse emocionada.

Para Irineu, o relato reforça o poder simbólico e terapêutico do projeto. "A cerâmica trouxe cura, trouxe alegria e despertou memórias que estavam guardadas. Ela faz a pessoa se sentir útil novamente, fortalece o espírito e resgata histórias que não estavam mais sendo contadas", afirmou.

Outra integrante do projeto, Osnita Machado, também destaca a importância da transmissão do conhecimento para as novas gerações. "É muito bom para a gente aprender esse trabalho que nunca tinha feito. E é importante passar para os mais novos, para que não se perca", disse.

Ela conta que, ao trabalhar com a cerâmica, sente-se conectada à própria ancestralidade."Eu me sinto bem. Gosto muito de fazer. A gente sente que está ligado aos nossos antepassados", relatou.

Na aldeia, o projeto já reúne mulheres de diferentes idades, netas, filhas e bisnetas, fortalecendo a continuidade da cultura Terena. Para Chicão, a retomada da cerâmica é também uma forma de resistência diante das influências externas e do risco de apagamento cultural. "Estamos muito próximos dos centros urbanos e isso acaba influenciando. Muitas vezes a cultura fica adormecida. Por isso, esse resgate é fundamental para manter nossa língua, costumes, a tradição e o modo de vida do nosso povo", afirmou.