11 de abril de 2026
OPINIÃO

Os brasileiros estão cada vez mais endividados

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

O povo brasileiro bateu novo recorde de endividamento que atinge 80,4% das famílias. Significa que 81,7 milhões de pessoas têm contas em atraso. Igual à metade da população adulta do Brasil. Dentro desses parâmetros, é possível dizer que em Bauru, temos 96 mil devedores com pelo menos três prestações em atraso.

O presidente Lula pediu "uma solução rápida" para o ministro da Fazenda Dario Durigan para mudar esse cenário antes que se reflita no ânimo dos eleitores, e ofusque os avanços da economia. Vale lembrar que Lula disse, dias atrás, que tem muita gente "viciada em gastar" em comprinhas na internet.

Chegou a ameaçar as plataformas de bets com medidas que proíbam os inadimplentes de fazer apostas. As bets foram criadas no governo Temer (2016-2018), passou os quatro anos de Jair Bolsonaro sem regulamentação e Lula decidiu permitir o funcionamento com regras que estipulam pagamento de outorga ao governo e impostos recolhidos aos cofres públicos.

Em outras palavras, Lula culpa o endividado pelo problema que, na verdade é mais complexo e estrutural, na análise da maioria dos economistas. O trabalhador no mercado formal tem a reposição das perdas inflacionárias em seu salário, calculadas sobre as variações de preços de 375 produtos. Quem ganha 1 ou 2 salários-mínimos não viaja de avião e só tem a ver com o custo dos gêneros básicos vendidos nos supermercados. Inflação para rico é uma coisa, inflação para pobre é uma questão de comida na mesa, cada vez mais cara. A perda do poder de compra dos salários, ano a ano, vai tornando a sobrevivência cada vez mais difícil.

O cartão de crédito continua sendo uma das principais fontes de endividamento, com juros de mais de 400% no rotativo. Em seguida vem o cheque especial, também com juros pornográficos. Existem políticos da base que põem a culpa no conflito do Oriente Médio, na alta dos combustíveis que impacta os preços e castiga, principalmente, os mais pobres.

Há muitos anos vivemos num país de renda baixa. Muitos consumidores passaram a utilizar o crédito como complemento de renda, e não como recurso pontual. Segundo o Mapa da Inadimplência da Serasa, mesmo em períodos de queda da taxa de juros o endividamento cresce. O "problema é estrutural" ou o que isso queira significar. O valor total das dívidas também cresceu 176% nos últimos 10 anos. As mulheres passaram a ser maioria. Há também o envelhecimento da inadimplência. Caiu o número de jovens na lista negra e houve aumento significativo na faixa acima dos 60 anos. A Geração "Z" prefere experiências a bens materiais; valoriza a autenticidade, a diversidade e saúde mental. Quanto mais brasileiros endivida menor a capacidade de compra. O comercio ressente-se nas vendas. Impacta também os serviços e a economia se desacelera no todo.

A solução que o governo encontra é o da renegociação das dívidas. Cogita-se em dar descontos na correção, na multa e nos juros que podem chegar a 99%. Os inadimplentes com dificuldades de honrar seus compromissos básicos terão como ajuda a liberação do Fundo de Garantia. Vão sacar do próprio futuro.

Tivemos, em 2023 o Desenrola Brasil, campanha que, segundo o governo, beneficiou 15 milhões de pessoas que puderam "limpar o nome sujo". Naquela época eram 72,9 milhões de devedores. De lá para cá, a este número somaram-se mais 9 milhões de devedores. Agora, o Palácio do Planalto prepara-se para lançar o Desenrola 2.0, com mecanismos que travam determinados tipos de empréstimos para quem se beneficiar.

O grande desafio é evitar que voltem a dever. O plano é o de se instituir oficinas de educação financeira desde a escola primária, como política de governo.

Quem sabe isso crie uma casca cultural e o consumidor do futuro aprenda a se planejar, para manter a vida em equilíbrio financeiro. O "viciado em gastar" de hoje, haverá de se conscientizar a não gastar tanto. Se o estômago permitir.