09 de abril de 2026
OPINIÃO

Antes de escolher trabalhar menos

Por Reinaldo Cafeo | O autor é Diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil
| Tempo de leitura: 2 min

Houve um tempo — não tão distante assim — em que sobreviver exigia mais braços do que escolhas. Em uma pequena casa de chão batido vivia uma família pobre, como tantas outras no Brasil do passado. Ali, ninguém ficava de fora do esforço coletivo. O pai trabalhava desde o amanhecer, a mãe somava jornadas invisíveis e os filhos, ainda pequenos, ajudavam como podiam. Não havia Estatuto da Criança e do Adolescente, não havia política pública que os protegesse. Havia, apenas, a necessidade.

Não se tratava de exploração romantizada, mas de sobrevivência. A conta era simples e dura: se todos trabalhassem, talvez desse. A jornada era longa, cansativa, repetitiva. Mas havia algo poderoso naquela rotina pesada: a união em torno de um objetivo comum — sair da pobreza.

Com o tempo, o esforço começou a render frutos. Os filhos cresceram, estudaram, qualificaram-se. Já não precisavam aceitar qualquer trabalho. Aos poucos, aquela família alcançou um novo patamar. A luta pela subsistência deu lugar à possibilidade de escolha. Foi só então que puderam discutir qualidade de vida, descanso, equilíbrio entre trabalho e tempo livre. Antes disso, a prioridade era clara: construir a base.

Essa história não é exceção. É, na verdade, o retrato do desenvolvimento.

Hoje, o Brasil se vê diante de um debate que merece maturidade: a discussão sobre o fim da escala 6x1, como se reduzir jornadas fosse, por si só, um atalho para o bem-estar social. A pergunta que precisamos fazer é outra: temos, enquanto país, a base econômica para isso?

O Brasil ainda é um país emergente. Convive com pobreza estrutural, informalidade elevada e baixa produtividade. Em economias ricas, trabalhar menos é consequência natural de décadas de investimento em capital humano, tecnologia, organização produtiva e crescimento sustentado. Aqui, muitas vezes, queremos começar pelo fim — usufruir dos benefícios sem termos construído o caminho.

Não há nada de errado em almejar mais qualidade de vida. Pelo contrário. O erro está em imaginar que ela surge por decreto. A família daquela história só pôde reduzir sua jornada depois de ter aumentado sua capacidade. Primeiro produziu mais, depois escolheu melhor.

Quando um país ainda não gerou riqueza suficiente, dividir o tempo de trabalho não multiplica resultados; apenas fragmenta a produção. Sem ganhos reais de produtividade, reduzir jornadas pode significar salários menores, preços mais altos ou menos empregos — justamente para os mais pobres, que ainda vivem a “fase da casa de chão batido”.

O verdadeiro debate, portanto, não é entre trabalhar muito ou pouco, mas entre crescer primeiro ou fingir que já chegamos lá. Países desenvolvidos trabalharam duro para se desenvolver. Só depois puderam trabalhar menos.

Talvez o exemplo daquela família humilde continue sendo atual. Antes de escolher menos esforço, é preciso construir mais futuro. O descanso pleno só faz sentido quando vem depois da travessia — não no meio dela.