Este é o meu quarto e último artigo da série sobre o desmonte ferroviário, pós concessão, fundamentada em quase 40 anos de trabalho no Sindicato dos Ferroviários. Após expor o luto e o abandono, encerro com uma convocação à soberania: a reestatização como único caminho.
Ferrovia Viva: a reestatização como Ato de Soberania Nacional
Após 30 anos de concessões que entregaram sucata em vez de modernidade, o diagnóstico é definitivo: a iniciativa privada falhou na gestão ferroviária brasileira. O que assistimos foi o lucro fácil de poucos sobre a canibalização do patrimônio público, sob o olhar complacente de quem deveria nos proteger.
A Falência do Controle e o Oportunismo
A destruição só avançou porque os poderes constituídos permitiram. Onde estava o Ministério Público, guardião da lei e do patrimônio público?
Onde estavam as Agências Reguladoras, que se tornaram balcões de negócios para chancelar os interesses das concessionárias? A omissão também passou pelos Tribunais de Contas, que assistiram passivamente ao prejuízo bilionário do erário enquanto contratos eram sistematicamente rebaixados para desobrigar as empresas de investir.
O alerta é urgente: a recuperação da ferrovia não pode continuar sendo uma pauta eleitoreira. O Brasil está exausto de candidatos que "redescobrem" o trem de quatro em quatro anos, apenas para engavetar projetos após a eleição. A proposta da Ferrovia Viva não é promessa de palanque; é um projeto de Estado.
Reestatizar para Sobreviver
A logística é a espinha dorsal de uma nação soberana. Delegar essa estratégia apenas ao mercado foi um ato de abdicação da nossa independência. A retomada passa, obrigatoriamente, pela reestatização.
Controle Estratégico: só o Estado tem o compromisso social de integrar o Brasil profundo, sem visar apenas o lucro imediato de acionistas.
Segurança e Saber: O transporte de carga e pessoas é questão de segurança nacional.
Reestatizar é reabrir oficinas e centros de formação, devolvendo ao ferroviário o domínio da técnica e a dignidade do emprego público.
O anúncio do fim e o alerta final
Escrevo sob o impacto do anúncio do fechamento total da antiga Noroeste. Quando comecei minha trajetória, éramos mais de cinco mil trabalhadores.
No mês passado, mencionei que restavam apenas 200 funcionários diretos; hoje, esse número já despencou para 50.
Ver nossa malha ser desligada dessa forma é uma sentença de morte executada em praça pública. Se nada for feito, essa cena de Bauru se repetirá em cada malha do país. A Noroeste é o alerta final de um colapso sistêmico.
Sim, o Brasil perdeu o trem da história por conivência institucional de sucessivos governos de direita, esquerda, centro e golpistas. Mas ainda é possível reembarcar. O bilhete, porém, exige coragem política para romper com as concessões fracassadas e devolver a ferrovia ao povo.
A reestatização não é olhar para o passado; é a única ponte para um futuro onde o Brasil volte a caminhar sobre seus próprios trilhos.