09 de março de 2026
COLUNISTA

A água que sacia para sempre


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A Palavra de Deus neste 3º domingo da quaresma nos conduz ao grande símbolo da água. Não é por acaso que tanto a Primeira Leitura (cf. Ex. 17, 3-7) quanto o Evangelho (cf. Jo. 4, 5-42) nos falam da sede e da fonte. O tempo da quaresma nasceu como tempo de preparação dos catecúmenos para o batismo na Vigília Pascal. Por isso, a Igreja, como mãe e mestra, nos apresenta a água — sinal da vida nova que brota de Deus.

Na Primeira Leitura (cf. Ex. 17,3-7), o povo, sedento no deserto, murmura contra Moisés: "Por que nos fizeste sair do Egito? Foi para nos fazer morrer de sede?". (Ex. 17,3). A sede física revela uma sede mais profunda: a dúvida. Eles perguntam: "O Senhor está no meio de nós, ou não?". (Ex. 17,7). Deus, porém, não abandona o seu povo. Ele ordena a Moisés: "Ferirás a pedra e dela sairá água para o povo beber". (Ex. 17,6). Da rocha ferida jorra a água que salva. Essa rocha é figura de Cristo. Também Ele seria ferido na cruz, e do seu lado aberto jorrariam sangue e água, sinais dos sacramentos que dão vida à Igreja. No deserto das nossas inquietações, Deus continua fazendo brotar água da rocha. Na Segunda Leitura São Paulo dá aos Romanos um novo sentido ao símbolo da rocha. Cristo é a rocha. Do Cristo morto e ressuscitado brota o Espírito Santo como rio de água viva. "O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (cf. Romanos 5,1-2.5-8).

No Evangelho (cf. Jo. 4,5-42), encontramos outra cena de sede. Jesus, cansado da viagem, pede: "Dá-me de beber". (Jo. 4,7). O Filho de Deus se faz necessitado para despertar na mulher samaritana uma sede maior. Ele lhe revela: "Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: Dá-me de beber, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva". (Jo 4,10). E proclama: "Quem beber da água que eu lhe darei nunca mais terá sede". (Jo 4,14).

A água do poço mata a sede por algumas horas; a água que Cristo oferece sacia eternamente. Trata-se do Espírito Santo, da graça que renova o coração. A mulher vai ao poço ao meio-dia, talvez para evitar olhares e julgamentos. Carrega em si a sede de amor, de sentido, de verdade. Ao encontrar Jesus, descobre que sua verdadeira sede era Deus. Também nós carregamos muitas sedes: sede de felicidade, de paz, de reconhecimento. Tentamos saciá-las em tantas fontes que logo se esgotam. Jesus, porém, nos convida a beber da fonte que não seca.

Por que, então, a Igreja escolhe este Evangelho no tempo da quaresma? Porque este é o tempo do reencontro com a graça batismal. A água que jorrou da rocha no deserto e a água viva prometida à samaritana apontam para a água do Batismo. Ali começou em nós uma fonte interior. Ali Deus fez morada em nossa alma.

A samaritana, transformada pelo encontro, torna-se missionária. Muitos afirmam: "Este é verdadeiramente o Salvador do mundo". (Jo. 4,42). Quem bebe da água viva não pode guardá-la só para si; torna-se fonte para os outros. Que neste tempo quaresmal, perguntemo-nos: de que fontes estamos bebendo? Estamos ainda murmurando como no deserto, duvidando da presença de Deus? Ou estamos deixando Cristo tocar nossa sede mais profunda?

Aproximemo-nos da fonte. Busquemos a Confissão, renovemos nossa vida batismal, participemos com fé da Eucaristia. A água viva continua a jorrar na Igreja.

Que neste 3º Domingo da Quaresma, cada um de nós possa repetir com humildade e confiança: "Senhor, dá-me dessa água". (Jo. 4,15). E que, saciados por Cristo, nos tornemos sinais de esperança para o mundo.