06 de março de 2026
OPINIÃO

Equidade de gênero na Engenharia brasileira: avanços e desafios

Por Lígia Mackey | A autora é primeira mulher eleita a presidir o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP)
| Tempo de leitura: 4 min

As mulheres têm reivindicado de forma crescente seus espaços de direito em cargos de liderança e no mercado de trabalho, desafiando estruturas que historicamente limitaram sua atuação profissional. Neste 8 de março, em reconhecimento ao Dia Internacional da Mulher, é fundamental reforçar que a preocupação com a equidade de gênero não deve ser só nossa, e sim de toda a sociedade. É preciso transcender o discurso e consolidar a igualdade como um imperativo econômico e social, uma vez que a disparidade entre homens e mulheres ainda é um traço estrutural do mercado e da sociedade. A análise da trajetória feminina nas áreas de Engenharia, Agronomia e Geociências exige, portanto, um olhar que equilibre o reconhecimento das conquistas recentes com a compreensão das barreiras que ainda impedem a efetiva equidade entre homens e mulheres. No contexto dessas profissões, setores que atuam como vetores de mudança social e desenvolvimento estratégico, a representatividade feminina não é apenas uma questão de justiça, mas uma necessidade técnica para a promoção de soluções diversificadas e resilientes para os desafios do país. Para compreender os avanços dentro do Sistema Confea/Crea, é preciso situar a realidade das mulheres brasileiras no panorama macroeconômico atual. A Síntese de Indicadores Sociais (SIS) de 2025, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresenta um cenário de contrastes. Em 2024, o nível de ocupação geral no Brasil atingiu o recorde histórico de 58,6%. Entretanto, ao segmentar os dados por gênero, apenas 49,1% das mulheres estavam empregadas, em comparação com 68,8% dos homens. Essa diferença revela que, apesar da expansão do mercado, o acesso feminino ao emprego formal permanece desproporcional.

Em relação à escolaridade, as mulheres brasileiras possuem, em média, maior nível de instrução que os homens, mas essa vantagem acadêmica não se traduz em equidade financeira. De acordo com os dados do IBGE, a força de trabalho feminina recebeu, em média, apenas 78,6% do rendimento dos homens em 2024. Este hiato salarial é alimentado por uma série de fatores, incluindo a concentração de mulheres em setores menos valorizados e a persistência do "teto de vidro" em cargos de alta gestão. A desigualdade de gênero no mercado de trabalho não é um problema de falta de qualificação feminina, mas de barreiras estruturais que dificultam a entrada e a permanência das mulheres em setores estratégicos. No caso das Engenharias, o desafio é ainda maior devido à herança cultural de masculinidade associada à profissão, o que torna as ações do Sistema Confea/Crea fundamentais para a transformação dessa realidade. A mudança no perfil demográfico dos profissionais registrados tem mudado nos últimos anos, com um aumento consistente da presença feminina, o que altera a dinâmica social e técnica dos canteiros de obras, laboratórios e escritórios de projetos dessas profissões. Dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) indicam que as mulheres representam atualmente cerca de 20% dos profissionais registrados em todo o país.

Este percentual de 20%, que totaliza mais de 240 mil mulheres, é o resultado de um salto gigante quando comparado aos dados de quatro décadas atrás, quando a participação feminina era de apenas 4%. A evolução é impulsionada, principalmente, pela entrada de novas profissionais no mercado. De acordo com o censo do Confea, 36% das mulheres atualmente registradas obtiveram seu registro profissional há menos de cinco anos, com destaque para as jovens com menos de 30 anos, que já representam um terço do total de registros femininos. Para incentivar a participação de mais mulheres nessas profissões e integrando o próprio Sistema Confea/Crea, o Programa Mulher atua como um pilar central das políticas de diversidade, alinhando as ações institucionais aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU). A missão do programa é fomentar a participação feminina de forma protagonista em todas as esferas. Em 2025, mais de 25 mil pessoas foram impactadas com as iniciativas do Programa Mulher paulista.

Estas ações incluem desde o incentivo a meninas a se interessarem pelas profissões tecnológicas até a capacitação de profissionais para posições de liderança. Um dos avanços mais responsáveis da nossa gestão no Crea-SP é o compromisso direto com a segurança de todas as pessoas, tanto no ambiente interno quanto na sociedade em geral. Em fevereiro de 2026, recebemos o Selo Ouro de Certificação em Boas Práticas no Combate à Violência Contra as Mulheres, concedido pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) em parceria com o Instituto Nós Por Elas. Esta conquista foi precedida pela certificação bronze - o Crea-SP foi o primeiro Conselho profissional do país a receber o selo - e reflete o amadurecimento das políticas institucionais. Também reafirmamos neste ano a adesão ao Pacto Ninguém Se Cala, uma iniciativa conjunta do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) e do Ministério Público do Trabalho (MPT). A evolução feminina no mercado de trabalho das Engenharias é um processo sólido, mas que ainda está longe de sua conclusão.

O Sistema Confea/Crea, sob a liderança de profissionais comprometidos, tem demonstrado amadurecimento institucional ao tratar a equidade de gênero com seriedade, investindo em programas de inclusão feminina e capacitação, certificações de boas práticas e combate à violência. Os dados sobre o mercado e as estatísticas do Confea servem como um alerta de que, embora tenhamos muito a celebrar, a vigilância e a ação contínua são indispensáveis.