01 de março de 2026
HISTÓRIA DE BAURU

Quem foi João Baptista de Carvalho, que dá nome ao Calçadão

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Priscila Medeiros
Calçadão da rua Batista de Carvalho

A rua Batista de Carvalho, uma das mais famosas de Bauru, que tem até verbo próprio ('Batistar'), é palco de história e fatos no mínimo curiosos desde o seu surgimento, no século 19.

A história começa com a vinda do mineiro João Baptista de Carvalho, em 1885, para a vila do Espírito Santo da Fortaleza, onde abriu uma venda e se tornou vereador na primeira Câmara da vila. Como vereador, participou da sessão de transferência da sede do município da vila do Espírito Santo da Fortaleza para a vila de Bauru, em 1896. Construiu uma venda e mudou-se para Bauru em 1899.

A venda e a casa de João Baptista ficavam no cruzamento das atuais ruas Araújo Leite e Batista de Carvalho, onde existe uma revenda de motos. Na época a rua Araújo Leite era a "estrada que ligava" Bauru e Agudos. A vila de Bauru já possuía muitas ruas, todas de terra, e que após emancipação da vila de Bauru para cidade, começaram a receber denominações: Primeiro de Agosto, Araújo Leite, Ezequiel Ramos, mas a rua da venda do João Baptista, nada. Ficou esquecida.

Revoltado com a situação, ele mesmo nomeou a rua: "Rua dos Esquecidos". Se foi uma manifestação de descontentamento ou uma maneira que encontrou para divulgar seu comércio, nunca saberemos. O fato é que o nome oficial viria três anos após sua morte, em 1901. Assim, a 'Rua dos Esquecidos' virou a rua Baptista de Carvalho (não se sabe quando o nome perdeu o 'p' original).

Por ser a principal via de acesso ao centro da cidade, dos passageiros que desembarcavam na Estação Ferroviária, época em que Bauru possuía o maior entroncamento de ferrovias do Brasil, com o encontro de três linhas férreas: Sorocabana, Paulista e Noroeste, a rua começou a ser palco da vida política da cidade e de fatos curiosos e históricos.

Em 1913, com o crescimento da cidade e a necessidade da continuação da rua Batista de Carvalho, a capela do Divino Espírito Santo, que ficava entre a atual porta principal da Catedral e o coreto, foi demolida, sem autorização da Igreja Católica. O fato gerou a excomunhão da cidade em 1913, e só obteve o perdão oficial do Papa Paulo VI em 1977. Quando da reforma da Praça Rui Barbosa, em 1990, a Prefeitura demarcou com pedras brancas o local exato da antiga capela. Quem passa pela praça, pode ver o desenho.

O quarteirão 1 da Batista de Carvalho recebeu um trincheira em 1924, durante a Revolta Paulista, que ocorreu entre 5 e 28 de julho daquele ano (o levante visava derrubar o presidente Artur Bernardes e acabar com o domínio das oligarquias da República Velha). Jovens militares tenentistas fugiram para a cidade e, ao ficarem sabendo que as tropas de SP viriam a Bauru, fizeram a trincheira e esperaram armados os soldados, que apenas mudaram de trem, sem sair da Estação e seguiram viagem. A Batista também foi palco, em 1929, do assassinato do então prefeito José Gomes Duarte, no quarteirão 7 (quase esquina com a rua Gustavo Maciel). Ele foi prefeito por dois mandatos e dá nome para uma rua no Altos da Cidade (rua Capitão Gomes Duarte).

Em 1934, mais uma vez a Batista é palco de um assassinado, que teve repercussão nacional. Plínio Salgado, um importante líder integralista visitava Bauru, no dia 3 de outubro, quando, em uma passeata pela rua Batista de Carvalho, a comitiva foi atacada, segundo se comenta, por comunistas, fato esse que resultou no assassinato de um correlegionário do Partido Integralista, o bauruense Roque Rosica.

Com o passar do tempo, a rua se consolidou como o principal comércio da cidade, reunindo estabelecimentos e lojas de todos os setores, de calçados a eletrodomésticos. E no início da década de 1990, começou a se transformar no Calçadão da rua Batista de Carvalho, no trecho entre os quarteirões 1 a 7, pelo então prefeito Antônio Izzo Filho.

A inauguração do Calçadão foi no ano de 1992. O local teve o tráfego de veículos totalmente fechado e, em sua extensão, foram inseridos 10 arcos de ferro por quadra, alguns deles com cobertura, além de jardineiras, coqueiros e bancos.

Com a população utilizando mais o espaço, principalmente aos sábados, para realizar compras, "bater perna" ou conversar sobre política em alguma cafeteria, surgiu o verbo "Batistar". Quem nunca foi 'batistar' no Calçadão, que atire a primeira pedra!

LENDA URBANA


Bauru também possui lendas urbanas e uma delas diz respeito ao trecho final da rua Batista, entre os quarteirões 12 a 15.

Esses quarteirões foram pavimentados com paralelepípedo e reza a lenda que o prefeito (a) que retirar os blocos e colocar asfalto, morrerá. Lenda ou não, o fato é que os paralelepípedos continuam lá até hoje.