01 de março de 2026
COLUNISTA

Da saída de abraão à luz da transfiguração

Por Dom Caetano Ferrari |
| Tempo de leitura: 3 min
Bispo Emérito de Bauru

O 2º Domingo da Quaresma nos conduz ao alto da montanha. A liturgia nos apresenta, de um lado, o chamado de Abrão (cf. Gn. 12,1-4a) e, de outro, a Transfiguração do Senhor (cf. Mt. 17,1-9). À primeira vista, são cenas diferentes: uma fala de partida e promessa; a outra, de glória e revelação. No entanto, há um ponto profundo que une essas duas passagens: o chamado de Deus que convida a sair, confiar e escutar, abrindo-se à promessa de vida e bênção.

Na Primeira Leitura, o Senhor diz a Abrão: "Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar". (Gn. 12,1). É um convite exigente. Deus não apresenta mapas nem garantias humanas; oferece apenas uma promessa: "Farei de ti um grande povo e te abençoarei". (Gn. 12,2). Abrão parte confiando. Ele caminha sustentado pela Palavra. A fé, aqui, é obediência confiante.

No Evangelho, Jesus leva Pedro, Tiago e João a uma alta montanha. Ali se transfigura: "O seu rosto brilhou como o sol". (Mt. 17,2). A voz do Pai proclama: "Este é o meu Filho amado, escutai-o!". (Mt. 17,5). Também aqui encontramos um chamado: escutar o Filho e segui-lo, mesmo quando o caminho desce da montanha em direção à cruz.

Abrão sai da sua terra. Os discípulos descem da montanha. Ambos são convidados a não se acomodar. Pedro queria permanecer ali: "Senhor, é bom ficarmos aqui". (Mt. 17,4). Mas a experiência da luz não é para ser guardada como privilégio; é para fortalecer a caminhada.

A Segunda Leitura ilumina ainda mais esse ponto. São Paulo recorda a Timóteo: "Deus nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não devido às nossas obras, mas em virtude do seu desígnio e da sua graça". (2Tm. 1,9). A Quaresma é tempo de redescobrir essa vocação. Somos chamados pela graça, sustentados pela graça e enviados pela graça.

O Salmo responsorial reforça a confiança: "Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça" (Sl. 32/33). Abrão confiou nessa graça. Os discípulos, assustados, ouviram Jesus dizer: "Levantai-vos, e não tenhais medo". (Mt. 17,7). É a mesma atitude que somos convidados a assumir: confiar quando Deus nos pede passos novos.

Também nós, em nossa realidade concreta, somos chamados a "sair": sair do comodismo, da indiferença, do pecado, do medo. Sair de uma fé superficial para uma fé madura. A Quaresma é tempo de êxodo interior. Deus continua dizendo: "Vai para a terra que eu te mostrarei". Essa terra é a vida nova em Cristo.

A Transfiguração antecipa a Páscoa. Mostra que o caminho da cruz conduz à glória. Jesus destruiu a morte e fez brilhar a vida e a imortalidade por meio do Evangelho. "Essa graça foi revelada agora, pela manifestação de nosso Salvador" (2Tm. 1,10). Abrão partiu sem saber aonde iria; nós caminhamos sabendo que a meta é a Ressurreição.

Queridos irmãos e irmãs, o ponto comum entre as leituras é claro: Deus chama e promete; cabe a nós escutar e confiar. Abrão partiu. Os discípulos levantaram-se. E nós? Estamos dispostos a ouvir o Filho amado?

Que esta Quaresma seja para todos nós um tempo de escuta mais atenta da Palavra, de oração mais profunda e de caridade mais concreta. Que possamos descer da montanha fortalecidos, levando aos irmãos a luz que contemplamos.

"Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça!" Que essa seja a nossa súplica e a nossa confiança. Amém.