28 de fevereiro de 2026
COLUNISTA

Regeneração neural periférica

Por Alberto Consolaro |
| Tempo de leitura: 3 min
Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC
Divulgação
Etapas da regeneração neural periférica com reconexão aproximada em 50 dias.

Quando um tecido é lesado será reconstruído pela regeneração ou por reparação. A regeneração ocorre a partir dos remanescentes deste tecido na região, que, estimulados por mediadores, entram em ciclo mitótico acelerado e fornecem diretamente células novas para recomporem estruturas.
Os mediadores são proteínas e peptídeos liberados na área pelas células ou trazidas pelo sangue. Atuam em receptores de superfície das células, induzindo funções ou dando sustentação a elas, como faz com a fibronectina e laminina. Regeneração é típica de epitélios da pele e mucosas, glândulas e vísceras, sistema nervoso central e periférico.

Sem remanescentes de tecido, não tem regeneração e o corpo não aceita espaços vazios. Isto estimula os tecidos vizinhos cuja função é unir ou conectar, chamados de tecido conectivo ou conjuntivo (formador de conjunto), a proliferar e ocupar espaços. O local não terá mais as funções do tecido perdido especializado. 
Nos tecidos conjuntivos (fibroso, ósseo, cartilagíneo, adiposo e outros), a região lesada se enche de sangue, forma coágulo com rede de fibrina, plaquetas e mediadores. A fibrina é um andaime de reconstrução, onde as células invadem o local com muitas mitoses, formando vasos e fibras. O tecido neoformado tem vários pontos ou grânulos vermelhos e recebe o nome de tecido de granulação, evoluindo para um novo conjuntivo. A reconstrução feita com tecido de granulação é a reparação.

NEURAL

O sistema nervoso tem baixa capacidade de regeneração, pois suas células são muito especializadas e com baixo índice mitótico. Quando for lesado, o tamanho da lesão vai ser muito importante, pois o tempo é crucial para novas células vizinhas proliferarem e chegarem no centro da lesão.

Os nervos periféricos têm capacidade regenerativa limitada, mas especial, pois são lineares como um fio e tem vasos e outros tecidos ao seu redor para sustentar, nutrir e suprir com mediadores em caso de lesão. Já o sistema nervoso central tem áreas maiores e mais distantes de vasos e outros tecidos.

Ao nascer, temos o número completo de neurônios para a vida, sem mitoses. Ao seccionar um nervo periférico, cria-se dois segmentos neurais de axônios: o proximal ligado ao neurônio no gânglio, e o distal, ligado ao órgão efetor como o músculo.

A reconexão neural periférica depende de três fatores: 1. A distância dos cotos: quanto menor, melhor. 2. O alinhamento dos cotos: fundamental. 3. A ausência de material entre eles como tecido fibroso, cartilaginoso e ósseo ou corpos estranhos.

A capacidade regenerativa dos axônios nos nervos dura 6 meses depois da ruptura. Quando há esmagamento ou rompimento, seguidos de sutura, a função é restabelecida entre 20 e 40 dias.

Nos cotos, as células de Schwann (formadoras de mielina) e fibroblastos perineurais proliferam em forma de cilindros ocos (canudos) e migram para as extremidades para se encontrarem. O axônio do coto proximal dá origem a 25 – 50 brotos novos de neurofibrilas dispostos aleatoriamente. Aos 50 dias, uma ou mais neurofibrilas do coto proximal, entram em um ou mais cilindros ocos e desenvolvem um novo axônio, restabelecendo, incrivelmente, a função anterior.
Pode ocorrer um lapso funcional de 20 a 40 dias. A velocidade de regeneração neural é de 2 a 3mm por dia e a aproximação por microcirurgia, abrevia esse tempo. Se os cotos não se encontrarem, a proliferação das neurofibrilas, células de Schwann e fibroblastos perineurais formam em uma massa desorganizada de tecido neural periférico chamado Neuroma Traumático ou de Amputação.

REFLEXÃO FINAL

Nas lesões, a reconstrução depende da chegada de novas células e mediadores. Estimular a proliferação celular e dar suporte mecânico às células fazem parte das funções dos mediadores como faz a laminina. Fornecer mediadores adicionais para os locais lesados pode favorecer a regeneração neural e também de outros tecidos.