28 de fevereiro de 2026
EM BAURU

Denúncia de oficina e peças no DAE tem queima de arquivo e ameaça

Por Nélson Itaberá | da Redação
| Tempo de leitura: 8 min
Reprodução
Estela Almagro em oficina

A apuração em curso no Departamento de Água e Esgoto (DAE) sobre irregularidades em procedimentos para a compra de peças e serviços de oficina foi para a Polícia, com queima de arquivo de documentos e ameaça de morte registrada entre servidores. Acionada a respeito da gravidade das consequências a partir de denúncia levantada no mês passado pela vereadora Estela Almagro (PT), a presidência da autarquia cita que "todas as providências de apuração em sindicância administrativa estão em andamento e medidas administrativas" estão em curso para a correção de procedimentos.

O caso trazido a público em postagem da rede social da vereadora Estela Almagro 'descamba' para agravantes. Informações agora apuradas pela reportagem também indicam necessidade de revisão na gestão, controle e monitoramento de procedimentos administrativos no DAE. A denúncia de irregularidades na contratação de serviço de oficina (da frota) é o ponto de partida. Mas os fatos pedem ampliação da apuração também sobre controles de estoque, compra de peças e outras ações.

Um contato anônimo, um dia após divulgarmos que o presidente do DAE João Carlos Viegas acolheu solicitação da Corregedoria e afastou 4 servidores para evitar interferência na apuração da denúncia relacionada ao serviço de freio realizado na oficina da Vila Engler, situou que ocorrera queima de arquivo, com apreensão de restos de documentos no fundo do Centro de Manutenção, no Jd. Ouro Verde.

Apuramos o registro de boletim de ocorrência com apreensão do material e entrega junto à Polícia Civil. Um reeducando confirma a informação de que dois servidores (entre os 4 afastados) teriam participado da tentativa de "queima de arquivo". Junto a fontes os ex-diretores Renato e Jorge foram citados no episódio.

Apuramos que a queima de documentos administrativos do DAE foi realizada na sexta-feira, próximo da hora do almoço. O desligamento de 4 servidores, noticiado pela reportagem horas depois, confirmara o apurado. E, de outro lado, revela a medida administrativa de preservação interna dos fatos. Além dos diretores Renato e Jorge, a autarquia afastara Leandro e Aparecido. A repercussão interna e nos bastidores já "fervilhavam" quando Aparecido (que foi diretor de serviços por 11 anos) pediu exoneração.

Apuramos que a Polícia Civil realiza perícia nos fragmentos dos documentos queimados. Comentários por "olheiros" da fogueira criminosa remetem a indícios com número identificado de processos de compra, entre outros elementos...

SEM FREIO

Nossa apuração detalhou a publicação na rede social de Estela Almagro, de 9 de janeiro deste 2026. No vídeo, a parlamentar expõe - em conversa com um mecânico em oficina na Vila Engler (perto da Vila Vicentina) - que o DAE realizou serviços de mecânica com cotações realizadas pelo próprio fornecedor, contrariando regras básicas, legais.

Na conversa, também está divulgado que o prestador de serviço reclama que "fez o freio dos dois eixos traseiros do caminhão 239" da frota do DAE, mas não recebeu pelo serviço. Ele conta à vereadora, no vídeo, que já prestou vários serviços de oficina para a autarquia. Mas não estava mais disposto a "gastar tempo" indo (ele) atrás de cotações.

No caso originário, por volta de setembro de 2025, como em outras ocasiões, o mecânico fez o orçamento e o serviço. Na mesma gravação, ele entrega para Estela print de seu telefone celular de imagem e informação de ligações de um homem da empresa chamada Star Tractor, de São Paulo, pedindo para que ele emitisse nota fiscal para ela (Stracor) pagar pelos cerca de R$ 1.300,00 em aberto junto ao DAE. Mais adiante, percebemos que o mecânico fez um serviço inicial nos freios. E, depois, fez a outra parte. Mas o pagamento "acumulou", passando do limite para verba de adiantamento. Houve troca na diretoria, no mesmo período. E a conta "ficou".

NO RASTRO

Partimos para buscar elucidar por que uma empresa com sede lá em São Paulo liga aqui em Bauru para uma oficina pagar por serviço de troca de freio de caminhão oficial do DAE?

A pista inicial estava no print da imagem abaixo entregue pelo mecânico da Vila Engler que reclamava não ter recebido pelo serviço que prestou. E alguém da Star Tractor ligou para pagar a conta. Na necessária pesquisa eletrônica da empresa confirmamos endereço (av. Corumbaíba, SP), contrato social, sócios e demais dados elementares.

A segunda pista veio após visita ao mecânico. Mesmo já sob a esperada postura refratária a partir da denúncia de Estela, ele forneceu indicações cruciais para avançar a investigação jornalística. Preservamos aqui o mecânico. Ele é um prestador de serviço que reclamou por não receber pelo serviço que prestou. Além disso, anotamos que ele não percebeu que nossa visita interessada em conserto de freio era apenas argumento para levantar mais informações.

Levantamos que a voz do interessado em pagar pelo serviço de freio do caminhão 239 era de alguém conhecido de outros "atores" do setor em Bauru. Outra observação importante para o público: o DAE tem oficina própria! Então por qual razão contrata uma oficina para trocar lona de freio de caminhão?

A terceira pista veio de contatos. Ao garimpar fontes na chamada rádio-peão (como os colaboradores do DAE falam sobre o que circula entre turnos e galpões) registramos que a Star Tractor tem presença em Bauru. E de outra conversa, em um botequim, surgiu que a pista era no Jardim Bela Vista. Publicamos uma nota, na rede social, com esta "isca". Deu certo!

Chegamos à Rua Boa Esperança. Lá funciona uma empresa vendedora de itens automotivos. E o que isso ajuda na apuração? Uma visita a uma residência e outra conversa nos arredores foi suficiente para checar que a empresa de peças tem registro na Junta Comercial com o mesmo endereço da Star Tractor, na Capital.

Um passo a mais foi cruzar o nomes dos sócios, administradores. Proprietário e esposa aparecem nos registros. Estamos preservando o nome de todos. Sem abrir mão da menção de que, assim, espera-se que a Polícia Civil e ou DAE elucidem a razão de alguém querer pagar o mecânico no lugar da empresa pública.

AÚDIO

Até então, porém, ainda não estava claro o contato entre alguém da Star Tractor ou da empresa da Bela Vista interessado em pagar pelo serviço de freio que o DAE deixou em aberto lá na oficina da Vila Engler.

Até que veio outra pista. Ao garimpar pregões eletrônicos de peças realizadas pelo DAE próximos do episódio da lona de freio na Vila Engler, no ano passado, está o registro 12/2025. O processo aberto em março (número 7226/24) não está aberto no site do DAE. Apenas a divulgação e edital.

E, após dias, foi exatamente a curiosidade para esta lacuna que trouxe outra informação. A filha dos proprietários das empresas da Bela Vista (com registro comercial em São Paulo) é a representante na ata de registro de preços de uma delas. Confirmamos, em visita, que as citações recaem para o mesmo endereço residencial, na Rua Boa Esperança. Estes dados foram suficientes para se chegar ao 'dono da voz' que ligou para a oficina da Vila Engler, cruzando a checagem.

A esta altura, uma conversa de 8 de janeiro foi a "cereja do bolo" para montar o quebra-cabeça das relações do caso. Aparecido e Renato (Jorge) falam sobre a necessidade de resolver a pendência com o conserto dos freios do caminhão 239 da frota do DAE.

CEI DAS PEÇAS E OFICINA

A vereadora Estela Almagro, na sessão da "quinta-feira" de cinzas do pós Carnaval, discursou pela necessidade de apuração através de Comissão Especial de Inquérito (CEI) acerca das irregularidades visíveis na contratação de serviços de oficina pelo DAE assim como na verificação de compra de peças.

Apesar de ter oficina própria, o DAE contrata oficinas para serviços complementares. Para trocar os freios, por exemplo, uma oficina convidada para realizar a cotação de preços (e com isso garantir o "menor valor") ajusta o sistema (dá um 'passe" na lona nova como dizem os mecânicos), arrebita o componente e o entrega.

Na oficina própria, o DAE desmonta o componente, leva para a oficina terceirizada dar o 'passe' e arrebitar e depois recoloca no caminhão. É evidente que a apuração tem de ampliar a verificação sobre outros serviços: de troca de rolamentos a consertos em sistemas de suspensão, caixa de direção, motor...

A assepsia e reestruturação, por óbvio, também não pode esquecer de comparar, oficialmente, nas melhores casas do ramo, diferenças entre preços de peças (no original e paralelo). É construtivo sugerir que a Controladoria Interna, se não souber, busque conhecimento sobre desde bobinas de máquinas a amortecedores e óleo de motor, câmbio.

A apuração também tem de elucidar como é feita a pesquisa de preços de peças, conforme determina a regra de atas. E, claro, a esta altura, verificar a autenticidade de orçamentos já realizados. Muita coisa não foi queimada.

A gravidade da denúncia em torno do caso inicial no DAE inclui registro, com servidora como testemunha, de ameaça contra outro servidor.

O DAE precisa, urgente, mudar a "regra" de adiantamento em dinheiro para pequenas despesas. Os registros indicam que um veículo pode dar entrada em oficina de fora para trocar o freio em uma roda mas, na hora de checar as outras rodas, o mecânico levantar que precisa trocar nas 4. O adiantamento no DAE permite duas vezes para despesa com valor de até R$ 300,00 e 3 vezes para despesa entre R$ 300,00 e R$ 500,00.

Assim como no caso das telhas de alumínio na Emdurb, o caso do DAE também evidencia a necessidade de formar e capacitar servidores de base, operacionais, quando estes alcançam funções de comando, onde é necessário o mínimo de conhecimento sobre legalidade e protocolos administrativos.