28 de fevereiro de 2026
DEPOIS DO VENDAVAL

Emdurb recupera contas e pode zerar dívidas em dois anos

Por Nelson Itaberá | da Redação
| Tempo de leitura: 6 min
Nelson Itaberá
Donizete do Carmo (presidente), João Tascin (controlador interno), Ériton Correa (dir. adm. e financeiro) e Sidnei Souza (gerente financeiro), na Câmara Municipal de Bauru

A mesma Emdurb que amarga a confirmação de irregularidades e falhas grosseiras de gestão administrativa na comercialização ilegal de telhas após o vendaval no Terminal Rodoviário, em setembro de 2025, fecha as contas do ano anterior com superávit significativo de R$ 5,7 milhões. O cenário ainda aponta que a empresa tem capacidade de zerar as dívidas em dois anos, após longo ciclo no vermelho.

O resultado identifica que, a rigor, a empresa municipal está conseguindo equilíbrio financeiro depois da injeção de R$ 20 milhões do governo municipal nos dois últimos anos. É o que apresenta a direção da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) na prestação oficial de contas obrigatória da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Ao mesmo tempo em que aguarda, no Legislativo, conclusão de relatório final da Comissão Especial de Inquérito (CEI) - na próxima semana - com já conhecida identificação de uma série de falhas no destino e comercialização de telhas de alumínio para empresa local de sucatas, o comando da empresa municipal demonstra que está deixando o ciclo de anos seguidos de balanço no vermelho.

Conforme o relatório contábil e financeiro, a Emdurb teve no caixa o total de R$ 100,2 milhões em 2025, para uma previsão orçamentária de venda de serviços prevista em R$ 94,5 milhões. Uma parte da diferença, para mais, veio do ajuste de preços em contratos de limpeza pública e sistema viário com a Prefeitura - com quem a empresa mantém exclusividade. Em 2024, para comparar, a Emdurb estimou R$ 87,4 milhões de receita e faturou R$ 90,6 milhões, gerando superávit de R$ 3,1 milhões.

A sequência positiva (e crescente) de saldos no fechamento dos exercícios contrasta com período sequencial de mais de um governo com déficits. A escalada negativa nas contas iniciou o primeiro ano do primeiro mandato do governo Suéllen, em 2021, com pelo menos R$ 14 milhões de déficit e mais de R$ 5 milhões de fornecedores na fila para receber, na ocasião. Os resultados ruins persistiram nos anos seguintes.

Em 2024, o governo municipal ajustou aporte, através de lei municipal, de R$ 20 milhões na empresa. O valor não foi suficiente para permitir investimento na frota de lixo, por exemplo, onde o sucateamento levou a Emdurb a alugar pelo menos 12 dos 15 caminhões necessários para conseguir entregar o serviço de seu maior contrato (levar 300 toneladas diárias de lixo domiciliar para o transbordo (no aterro velho).

DÍVIDAS

Mas, conforme o relatório fiscal apresentado na última quarta-feira (25), a Emdurb, finalmente, demonstra capacidade de pagar todas as despesas mensais (inclusive os encargos trabalhistas - INSS, FGTS, Cofins) e, ainda, quitar o parcelamento das dívidas neste mesmo segmento. A maioria das contas (dívida fundada) é exatamente do calote acumulado com encargos, junto à União. A empresa pagou R$ 10,6 milhões desses parcelamentos no ano passado. E já havia pago outros R$ 10,7 milhões em 2024.

Assim, o estoque de dívidas parceladas foi reduzido em 25,42% entre 2024 e 2025. Os restos a pagar com a União fechou o último ano em R$ 22,9 milhões. Este valor bateu na casa dos R$ 40 milhões até o início do programa de equacionamento, com aporte pelo Município, no atual governo.

"A empresa, neste momento, compromete ainda R$ 867 mil mensais de suas receitas para honrar os parcelamentos das dívidas. A boa notícia é que com o planejamento do ajuste realizado esse valor vai cair para R$ 700 mil ainda neste ano", cita o gerente financeiro Sidnei Souza.

O Controlador Interno (ex-diretor financeiro), João Tascin, acrescenta: "é importante verificar que os parcelamentos vão ser finalizados, em sua maioria, já em 2027. E terminam com muito pouco para o início de 2028. E isso vai, mês a mês, permitir a recuperação desde já em investimentos de estrutura, equipamentos e frota, o que não era possível de imaginar nos anos anteriores".

O resultado não vem ancorado somente no aporte de R$ 20 milhões (injeção direta de verba do Município através de lei específica) ainda no final do primeiro mandato de Suéllen. A Emdurb ajustou o preço de serviços. Algumas operações ainda são cobertas pelo Município. Um exemplo? A gestão do aeroporto não gera mais do que R$ 110 mil no ano com taxas de uso (embarque e desembarque) do Aeródromo. Assim, a Prefeitura paga a diferença, via orçamento, para a gestão do Aeroporto Urbano (pagando outros R$ 1,9 milhão no ano).

COLETA DE LIXO

A Emdurb também deixou de ter despesas com transbordo (incluindo pedágio na rodovia) para levar o lixo domiciliar até o aterro da Estre em Piratininga. Este custo é pago pela Prefeitura para a empresa privada.

Na visão da diretoria, mesmo com a PPP do lixo a tendência nas contas é de recuperação da capacidade de investimento. "Os R$ 10 milhões hoje destacados para pagar encargos atrasados é revertido para investir". A empresa tem projetos de parquímetro e gestão digital no trânsito em andamento.

Donizete do Carmo, presidente que retornou ao cargo há poucas semanas como decorrência da saída de Gislaine Magrini da função principal - além da exoneração dos diretores Levi Momesso e Bruno Primo -, cita que somente com despesas de aluguel (a maior parte caminhões e compactadores da coleta) e contrato de radares a Emdurb destinou R$ 21 milhões nos últimos 2 anos. Foram R$ 7,990 milhões em 2024 e outros R$ 12,911 milhões em 2025.

O aumento de despesa somente com aluguéis e contrato de radares foi de R$ 61,6% nesse período. "O investimento total contabilizado ficou em apenas R$ 121 mil em 2025", menciona o diretor administrativo e financeiro, Eriton Luis Correa.

PRODUÇÃO

A Emdurb coletou 89,3 mil toneladas de lixo domiciliar em 2025, com faturamento de R$ 25,3 milhões. Em 2024, foram 83,4 toneladas (receita de R$ 20,8 milhões). Este é o volume estimado de "perda no caixa" se a PPP do lixo for concluída. Conforme divulgamos, o governo Suéllen anunciou que vai cobrar tarifa do lixo em um total de R$ 90 milhões ao ano. A despesa total com coleta, transbordo, Ecopontos e coleta reciclável, hoje, soma em torno de R$ 60 milhões de despesas no ano.

A varrição de ruas, outro serviço que o governo municipal incluiu na PPP, representou R$ 12,1 milhões na receita da Emdurb no ano passado, com 12,1 milhões de metros quadrados registrados do serviço, conforme o relatório. A concessão do lixo inclui, no pacote, R$ 29 milhões de despesas com serviços (varrição, capinação, pintura de guias e limpeza de bueiros).

RADARES

A Emdurb recuperou as receitas com multas aplicadas com radares em 2025. O planejamento para garantir continuidade do contrato não funcionou em 2024. No final de 2023 foi encerrado o contrato com uma empresa. Mas a licitação aberta, naquela ocasião, sofreu impugnações junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE). A retomada demorou meses, afetando significativamente a arrecadação no setor.

Os números comparativos identificam o efeito. Em 2024, os radares registraram apenas 1.500 infrações em razão da paralisação da prestação de serviço contratada. 2025 fechou com 71.918 multas aplicadas pelos equipamentos eletrônicos.

De outro lado, a atuação do Grupo de Operações do Trânsito (GOT) gerou mais "canetadas" - mesmo sem aumento o quadro de operadores nas ruas. O GOT aplicou 11.872 multas em 2024, contra 14.336 no ano passado.

Ressalte-se que o número de acidentes de trânsito registrados, no mesmo período comparativo, apresenta indicadores similares: 2.274 acidentes em 2024 e 2.235 em 2025. O número de vítimas fatais caiu perto de 20% (24 contra 20 no último ano). Mas a maioria dos óbitos continua, infelizmente, envolvendo jovens e o uso de motos nas ruas.