Oito anos após a morte de Marielle Franco e Anderson Gomes fez-se justiça. Os assassinos já estavam condenados. Faltavam os mandantes. O julgamento demorou porque o crime foi pessimamente investigado no começo e de forma dolosa. A execução por emboscada da vereadora carioca e seu motorista demorou a ser julgado porque é difícil lidar com o crime organizado. Essa metástase infiltra-se no Estado de Direito e no poder jurisdicional da Nação, a partir do evento tumoral de influências sustentadas pelo dinheiro. Foi difícil lidar com gente como o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio Domingos Brazão; com o ex-deputado federal Chiquinho Brazão e com o próprio ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa, aquele que tentou impedir toda a investigação. A sentença foi exemplar: 76 anos de prisão para os dois irmãos e 18 para o policial.
O assassinato expos a cara do Brasil machista, misógino, racista e homofóbico. Mariela era uma pedra no caminho da cobiça. Era preciso calar a voz da vereadora carioca que teve a audácia de sair da pobreza e, como mulher negra e gay, ter seus méritos e determinação reconhecidos pelos eleitores.
A vereadora, era uma estrela política em ascensão. Mesmo depois de metralhada e morta por dois milicianos, o povo dela não se esqueceu. Durante muito tempo a frase "Quem matou Marielle?" foi repetida em todos os cantos da cidade. Havia o temor da impunidade, uma tragédia brasileira. A mãe de Marielle, o pai, a irmã e a viúva nunca perderam a esperança de que o dia da justiça iria chegar. Depois de presos os autores dos disparos o clamor continuou, modificado: "Quem mandou matar Marielle?".
O "feudalismo criminoso", assim chamado pela ministra Cármen Lúcia, tem que acabar para o bem do povo e do próprio país. O controle territorial por bandidos, no Rio e em outras capitais, é intolerável. Há pouco o mundo testemunhou, estarrecido, a morte de 121 narcotraficantes no Complexo do Alemão. Nessa guerra, cinco policiais também morreram como heróis, além de outros feridos com sequelas para o resto da vida. De que valeu subjugar favelas? De lá para cá, pouco ou nada se fez para desalojar a narcomilícia de áreas urbanas do Rio Maravilha. As facções com poder político, além de tráfico praticam o esbulho de áreas de preservação e submetem moradores de bairros inteiros a extorsões. Os que se indignam ficam sem luz, sem acesso ao gás, à internet e morrem. Não há pudor para matar e para práticas abusivas.
Enquanto o Supremo Tribunal Federal julgava os matadores de Marielle e Anderson, o Congresso Nacional aprovava o projeto da Lei Antifacção. Trata-se do endurecimento das penas da lei para crimes cometidos por integrantes de facções, com dispositivos que permitem o bloqueio de bens e perdas patrimoniais antes da condenação definitiva.
Diante do torniquete aos crimes do colarinho branco, os parlamentares, em parte, recuaram. O texto do projeto também previa aumento de penas para organizações criminosas, lavagem de dinheiro e escritórios de advocacia que utilizem matrículas na OAB e CNPJ para atividades ilegais. Houve um acordo do governo com a oposição. Banqueiros, empresários, políticos e advogados envolvidos em associações para o crime podem dormir sossegados. Os gabinetes da elite política continuarão servindo a conluios, a exemplo daquele de onde saiu a ordem e o dinheiro para os matadores de Marielle.
Também foi retirado do texto aprovado o trecho que cobrava uma taxa das Bets para financiar a área da Segurança. As Bets pagam 32% de impostos sobre os R$ 37 bilhões faturados. Em termos internacionais, em matéria de jogos de azar, ficou barato.
O Supremo quebra um ciclo de impunidade entre brancos com poder e dinheiro. Também ameaça fulminar os penduricalhos que ultrapassam os limites constitucionais.
Juntando-se ao caso Marielle é possível que a Corte melhore a percepção do seu trabalho perante a Opinião Pública.