26 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Economia andando de lado: o custo de adiar decisões

Por Reinaldo Cafeo | O autor é diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil
| Tempo de leitura: 3 min

A virada de 2025 para 2026 confirmou um sentimento que já vinha se espalhando entre empresários, trabalhadores e analistas: a economia brasileira perdeu fôlego. Os indicadores divulgados no fim do ano passado e no início de 2026 mostraram um quadro pouco animador, marcado por baixo dinamismo e pela ausência de motores claros de crescimento.

O comércio varejista, tradicional termômetro do consumo das famílias, apresentou recuos importantes em diversos segmentos. A indústria, que já vinha operando abaixo de seu potencial, voltou a dar sinais de fraqueza, refletindo tanto a demanda doméstica contida quanto um ambiente pouco favorável ao investimento produtivo. Já o setor de serviços — frequentemente apontado como mais resiliente — até evitou uma retração mais aguda, mas esteve longe de apresentar desempenho capaz de sustentar uma retomada consistente da atividade.

O resultado é uma economia que parece andar de lado. Cresce pouco, oscila muito e gera menos oportunidades do que poderia.

Ao fecharmos o segundo mês de 2026, a pergunta que se impõe é inevitável: esse desempenho fraco do fim de 2025 compromete o ano corrente? A resposta, infelizmente, tende a ser positiva. Economias que entram em um novo ano com baixo nível de atividade carregam uma herança negativa, reduzindo o chamado “carregamento estatístico” e dificultando a aceleração do crescimento nos meses seguintes.

Mais do que isso, a estagnação prolongada cobra um preço elevado no mercado de trabalho. Menor crescimento significa menor geração de empregos, avanço mais lento da renda e, consequentemente, consumo contido — um ciclo que se retroalimenta negativamente.

Entre as causas desse quadro, a questão fiscal ocupa lugar central. A percepção de fragilidade das contas públicas segue pesando sobre as expectativas. A dificuldade em apresentar uma trajetória crível para a dívida pública aumenta a incerteza, pressiona prêmios de risco e limita o espaço para uma política monetária mais estimulativa.

Não por acaso, o Banco Central se vê obrigado a manter a taxa de juros em patamar elevado por mais tempo do que o desejável, apesar da sinalização de queda na próxima reunião do colegiado. Em um ambiente de juros altos, os efeitos são bem conhecidos: o crédito encarece, os investimentos produtivos são adiados ou cancelados e o consumo das famílias perde força.

Esse impacto é ainda mais severo quando se considera o elevado nível de endividamento das famílias brasileiras. Com parcelas comprometendo parcela crescente da renda, sobra pouco espaço para ampliar gastos. O resultado é um consumidor cauteloso, focado em honrar dívidas e recompor orçamento, e não em impulsionar a demanda.

Do lado das empresas, o cenário não é mais favorável. Juros elevados e incerteza fiscal reduzem a disposição para investir, especialmente em projetos de longo prazo. Sem investimento, não há ganho de produtividade. Sem produtividade, o crescimento potencial do país segue limitado.

É importante destacar que esse quadro não é fruto de um único fator, nem de um evento isolado. Trata-se da combinação de decisões adiadas, reformas incompletas e de uma estratégia econômica que, até aqui, não conseguiu alinhar responsabilidade fiscal, crescimento e inclusão social.

O risco, se nada mudar, é o Brasil se acomodar em um padrão de crescimento baixo, incapaz de absorver plenamente sua força de trabalho e de gerar ganhos sustentáveis de renda. Um país que cresce pouco não apenas produz menos riqueza — ele também amplia frustrações, desigualdades e incertezas.

Ainda há tempo para mudar esse rumo. Mas isso exige enfrentar o debate fiscal com seriedade, previsibilidade e transparência. Exige também criar condições para que os juros possam cair de forma consistente, estimulando o investimento, o consumo responsável e a retomada do crescimento.

A economia brasileira não precisa de milagres. Precisa de decisões. E quanto mais elas forem adiadas, maior será o custo pago por toda a sociedade.