A lichia deixou de ser na região de Avaré (SP) apenas uma fruta de festividades de final de ano para se tornar protagonista de uma cadeia produtiva moderna. Por meio de novos métodos de conservação, processamento e o cultivo de variedades tardias, produtores locais conseguem estender o período de comercialização e agregar valor a uma fruta que, até pouco tempo, dependia exclusivamente do frescor imediato.
No interior da casca rígida e áspera, a lichia esconde uma polpa carnuda e uma fragrância floral exótica. Embora no Brasil sua presença seja o símbolo das festividades de final de ano - com o ápice da colheita entre novembro e janeiro -, em sua terra natal, a China, ela carrega o título de "fruta do amor".
No pomar da Britchis, em Itaí (SP), a fruta milenar ganha escala e tecnologia. A empresa de agricultura familiar, que conta com o apoio técnico da Diretoria de Assistência Técnica Integral (Cati), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio da Cati Regional Avaré, dedica 114 de seus 194 hectares exclusivamente à lichia.
Ali, a variedade clássica, ou bengal, que é a mais encontrada nos mercados do sudeste brasileiro, divide espaço com outras sete: fogo, ouro, tutti-frutti, crocante, laranja, gigante e coração.
A diversidade impressiona: enquanto uma lichia clássica pesa cerca de 20 gramas, a gigante chega a pesar 40.
Já a variedade coração se destaca pela facilidade com que a casca se rompe sob uma leve pressão.
"O que nos atraiu é que é uma fruta que se vende por um preço relativamente alto. E a gente via uma grande oportunidade de trabalhar de forma disruptiva no marketing, na criação de novos produtos, que víamos que não era o foco de produtores brasileiros até então", explica o produtor Ricardo Pinto que, junto à esposa Adriana e filhos, exportou, em 2025, quase metade de toda a lichia do Brasil para o mercado europeu.
A expansão para o mercado externo, há cerca de três anos, trouxe um desafio: o descarte. Frutas com pequenas imperfeições estéticas, embora perfeitas para o consumo, eram rejeitadas pelo comprador internacional. Para atender essa exigência de maneira sustentável, ambiental e economicamente, a solução veio através da tecnologia de processamento.
Hoje, a polpa descascada e descaroçada é congelada em ultracongeladores, garantindo renda durante o ano todo. Outra parte da produção é liofilizada, transformando-se em um snack crocante que preserva os açúcares naturais da fruta. A versatilidade não para por aí: a lichia também dá origem a uma aguardente cristalina e perfumada, além da "passa de lichia", que abre caminho para geleias e a exótica lichiada.
Essa operação bem-sucedida também é reflexo do fortalecimento da Cadeia Produtiva Local (CPL), que envolve 18 municípios do sudeste paulista. Em 2025, o projeto recebeu aporte de recursos do Governo do Estado para fomentar o desenvolvimento dos pequenos produtores.
De acordo com o engenheiro agrônomo Euvaldo Neves Pereira Junior, chefe da CatiRegional Avaré, a região possui vocação para a fruticultura. "Além disso, nossa produção foge da época tradicional de outros mercados, o que nos permite oferecer um produto diferenciado quando a oferta global diminui", aponta Junior.
Se por fora a lichia ostenta uma armadura vibrante, por dentro ela guarda uma alma translúcida - uma dualidade que, na China, resume a essência do romance. Mais do que o formato de coração, o título de fruta do amor nasceu na Dinastia Tang, no século VIII. A lenda conta que o Imperador Tang Minghuang, em um gesto de devoção extrema, ordenava que mensageiros cruzassem o império em cavalos velozes, dia e noite, apenas para entregar lichias frescas à sua concubina favorita, Yang Yuhuan. Até hoje, presentear com lichias é um gesto que simboliza paixão, sorte e nobreza.