22 de fevereiro de 2026
OPINIÃO

Moradia digna para todos


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A escolha da moradia como tema da Campanha da Fraternidade 2026, promovida pela CNBB, não surge por acaso. Com o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a Igreja coloca no centro do debate um direito básico que continua distante para milhões de brasileiros: viver com dignidade em um lar seguro, adequado e estável. Ao conectar fé e realidade social, a campanha lança luz sobre um problema estrutural que, apesar de décadas de políticas públicas, ainda revela o quanto avançamos pouco na moradia social no Brasil.

Os números ajudam a explicar essa urgência. Segundo a Fundação João Pinheiro, responsável pelo cálculo oficial do déficit habitacional no país, o Brasil registrava em 2022 mais de 6,2 milhões de moradias em falta, número que caiu para cerca de 5,97 milhões em 2023. Embora haja uma leve redução estatística, o volume absoluto segue enorme e revela a distância entre necessidade e solução.

Mais do que ausência de casas, o déficit habitacional envolve situações de moradia precária, coabitação forçada entre famílias, aluguel que consome parcela excessiva da renda e imóveis superlotados. Ou seja, o problema não está apenas em construir novas unidades, mas em garantir condições reais de vida digna.

O estado de São Paulo, maior economia do país, simboliza esse paradoxo. Também segundo a Fundação João Pinheiro, São Paulo lidera o déficit habitacional nacional em números absolutos, com cerca de 1,2 milhão de moradias faltantes. O dado evidencia que crescimento econômico, por si só, não resolve desigualdades estruturais. Há produção imobiliária, mas muitas vezes voltada a faixas de renda que não dialogam com quem mais precisa. A moradia vira ativo financeiro, enquanto famílias seguem sem acesso ao direito básico de habitar.

Nesse contexto, a Campanha da Fraternidade 2026 assume um papel simbólico e político relevante. Ao afirmar que Deus “veio morar entre nós”, a proposta convida a sociedade a enxergar a moradia como expressão concreta da dignidade humana, e não apenas como tema técnico de urbanismo ou mercado.

Discutir moradia social hoje é discutir saúde pública, segurança, mobilidade e inclusão. Sem endereço fixo e condições adequadas, famílias enfrentam mais dificuldades para acessar emprego, educação e serviços básicos. A casa é o ponto de partida para quase todos os outros direitos sociais.

Em Jundiaí, estima-se um déficit de 20 mil moradias. E, apesar de o poder público ter dado um salto gigante neste último ano, com anúncio de novas moradias, após oito anos sem nada, temos, em nossa cidade uma dificuldade bem própria, que é o alto custo dos terrenos para projetos de habitação social. Para quem ainda duvida, fica claro que Jundiaí foi há muito tempo tomada pela especulação imobiliária e morar aqui tem se tornado cada vez mais caro.

Paris tem feito um esforço hercúleo para diminuir o déficit habitacional. Há um projeto consistente para trazer moradores ao Centro da cidade, transformando antigos estacionamentos em prédios populares. Quiçá aqui em Jundiaí também possamos ter nosso centro ocupado por habitações novas, de interesse social, trazendo vida à região central.  Não adianta jogar mais gente no Vetor Oeste, por exemplo, sem que haja novas condicionantes viárias para o ir e vir da população.

A moradia digna continua sendo uma promessa incompleta — e talvez por isso o lema da campanha seja tão emblemático: morar entre nós significa reconhecer que ninguém deveria ser invisível quando o assunto é o direito de ter um lar. São Paulo tem surgido com projetos inovadores, como a construção de casas pré-fabricadas para a moradia popular e Jundiaí, sob administração de Miguel Haddad, também promoveu uma parceria com a iniciativa privada para erradicar a favela do Jd. Tamoio. Deu certo e o EIV (Estudo de Impacto de Vizinhança) e outras legislações estão aí para isso.

Na última semana, anunciamos que os arredores do novo trem Intercidades poderá receber mais de 20 mil moradias - 2 mil só em Jundiaí. Soluções existem, mas é preciso trazê-las com consistência, com serviços públicos adequados, escolas, creches, lazer para que esta população também tenha o direito ao florescimento cidadão.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ