A vaidade costuma acompanhar figuras ilustres, que estariam acima de qualquer suspeita. Presumem os ingênuos que pessoas eruditas, cultas e qualificadas, não se incomodariam com o que pensam os outros sobre elas. Nem que se ressentiriam diante da circunstância de haver brilho superior ao deles.
Todavia, a história universal está prenhe de exemplos de vaidades que acompanharam e, em regra, atormentaram, grandes espíritos.
Joaquim Nabuco, homem público de prestígio internacional, um dia faleceu. O Brasil quis reverenciá-lo e propiciar um funeral digno de sua História. O Prefeito Serzedelo Correia designou o General Jônatas Barreto para cuidar do cerimonial. O corpo seria exposto à visitação pública e só então percebeu-se que o caixão não tinha chave, nem fechadura. Ninguém sabia como abri-lo, para que os restos mortais pudessem ser vistos pelos que comparecessem às exéquias.
Só bem tarde foram descobrir que havia um botão, quase secreto, que, acionado, abria automaticamente a urna mortuária. E o comentário dos que participavam dos preparativos à cerimônia foi o reconhecimento da vaidade de Joaquim Nabuco: compreenderam que se tratava de sua última vontade, talvez do seu pedido final. Ele não queria que o vissem desfigurado pela morte, ele que se considerava o homem mais bonito já nascido no Brasil.
Outro alvo de comentários de certa forma desairosos, era o escritor Cláudio de Sousa, acadêmico tanto da Academia Brasileira como da Academia Paulista de Letras. Era um homem muito rico. Era considerado estrategista e muito feliz nos negócios. Dizia-se que ele conseguia tudo o que desejava. Ao que algum colega menos caridoso indagava: - “Mesmo escrever bem?” e a resposta, igualmente generosa, era: “Ah, isso não!”.
Exatamente por saber que não escrevia como outros escritores, que alcançaram reconhecido sucesso, Cláudio sofria. Nada obstante, uma qualidade ele tinha: era capaz de confessar que lhe faziam mal os aplausos recebidos por aqueles que conseguem vencer na exploração dos gêneros literários que ele tentava exercitar.
Conta-se que em um espetáculo teatral de Oduvaldo Viana, a peça ia agradando cada vez mais o espectador, à medida que avançava. O público passou a manifestar crescente agrado. Cláudio ia se mostrando cada vez mais indignado. Achava que a comédia era vera imitação de vaudevilles espanhóis. Que não havia qualquer mérito em seu autor.
Coelho Neto, que acompanhava Cláudio de Sousa, quis defender Oduvaldo. E Cláudio não se conteve. Convidou o colega a deixar o salão de espetáculos e, já na rua, confidenciou que não se podia conter quando assistia a uma vitória literária. Procurava dominar-se, mas não conseguia. “O que hei de fazer? Esse sentimento é mais forte do que eu. Eu sofro com o triunfo dos outros!”.
Coelho Neto ainda comentou: - “Mas isso é inveja, perfeitamente caracterizada!”.
- “Lá isso é”, admitiu Cláudio de Sousa.
Coelho Neto não disse àquela hora, mas depois observou com demais colegas de Cláudio da Academia Brasileira de Letras:
- “Ele daria a sua fortuna toda para ter talento e a metade dela para que os outros não o tivessem...”.
Isso acontece ainda hoje, com duas diferenças: primeiro, o invejoso não admite a doença da vaidade e não está disposto a abrir mão de qualquer importância para ter talento. Prefere sofrer a perder qualquer parcela de seu patrimônio material. É a vaidade em sentido estrito. Irmã gêmea da pretensão egoísta. Só a morte o liberará de tal suplício.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo