15 de fevereiro de 2026
COLUNISTA

Arquivos expostos - feridas profundas


| Tempo de leitura: 4 min

Temos lido a respeito dos arquivos expostos do "caso Jeffrey Epstein" e, com isso, somos confrontados com um dos episódios mais sombrios ligados à elite contemporânea. O financista bilionário foi acusado de sustentar um esquema de abuso e exploração, usando dinheiro, prestígio e uma ampla rede de contatos para atrair, aliciar e silenciar vítimas. Segundo reportagens as denúncias incluem tráfico sexual e exploração de menores, aliciamento e abuso de adolescentes - e, em algumas narrativas, também menções a tráfico de mulheres e pedofilia, com suspeitas envolvendo pessoas influentes e figuras públicas de alcance mundial.

Condenado em 2008 e preso novamente em 2019, a morte de Epstein na prisão não encerrou o caso. Pelo contrário: a recente divulgação de milhões de páginas de registros pelo Departamento de Justiça dos EUA - com e-mails, fotografias e diversas comunicações - revelou a extensão de sua rede de relações e reacendeu em escala global a cobrança por apuração, responsabilização e justiça.

Nesse cenário, é preciso ser justo e sóbrio: o simples registro de informações em arquivos não constitui por si só prova nem sentença. A própria imprensa noticiou que segundo o diretor do FBI, não há "informações confiáveis" de que Epstein tenha traficado mulheres. Ainda assim a vastidão do material divulgado mostra algo que a Escritura Sagrada jamais amenizou: a impressionante capacidade humana de usar o poder e a influência para ocultar abusos e crimes. Se as implicações mais graves se confirmarem, o caso pode se tornar um dos maiores e sombrios escândalos da história recente; porém as feridas mais profundas estão nas vítimas reais, marcadas por abuso, manipulação e exploração. E quando falamos dos vulneráveis, é impossível ignorar as denúncias da senadora Damares Alves sobre o desaparecimento de crianças no arquipélago do Marajó. Em pronunciamento no Senado em 3 de fevereiro de 2026, ela afirmou haver "mais de 50 mil crianças desaparecidas" no Brasil.

A Bíblia nos conduz na direção oposta a tudo isso. Ela declara que a vontade de Deus para a humanidade é a santificação - que aprendamos a viver com pureza e domínio próprio, e não dominados por paixões (1Ts 4.3-5). Essa ética não nasce do moralismo, mas do Imago Dei: nossa dignidade não depende de fama, poder ou "utilidade", e sim do fato de que homem e mulher foram criados à imagem de Deus (Gn 1.26, 27). Jesus aprofunda esse princípio ao mostrar que todo mal não se limita ao ato visível, mas começa no coração, na cobiça que transforma gente em objeto (Mt 5.27,28). E quando o alvo são os vulneráveis, Cristo é contundente: há juízo severo contra quem faz tropeçar os "pequeninos" (Mt 18.6). Por isso a Escritura trata a exploração de inocentes como afronta direta ao Criador. O corpo não é mercadoria e a sexualidade não é campo de caça, mas dom que exige aliança, honra e responsabilidade. Ao mesmo tempo a doutrina bíblica - tão sublinhada pela tradição Reformada sobre a Depravação Total - nos lembra que o pecado atravessa todas as dimensões da vida humana. Isso não significa que todos sejam igualmente perversos, mas que ninguém está moralmente intacto. Assim, não idolatramos elites nem nos surpreendemos com suas quedas, pois "não há justo, nem um sequer" (Rm 3.10-12). Portanto o que se revela no "universo Epstein" é uma terrível idolatria com uma aparência refinada e pessoas reduzidas a objetos.

Mas a Bíblia não se limita ao foro íntimo, ela também fala de justiça pública. Deus estabelece autoridades civis para conter o mal e promover o bem comum na sociedade (Rm 13.1-4). Assim, transparência e investigação não são "linchamentos públicos", mas podem ser expressões do mandamento de aprender a fazer o bem e defender o oprimido (Is 1.17). O que virá à tona deverá conduzir a processos sérios e a proteção de quem sofreu — e não apenas ao entretenimento midiático.

O apóstolo João declarou que "o mundo jaz no maligno", e Jesus advertiu: "nada há encoberto que não venha a ser revelado" (1Jo 5.19 - Lc 12.2). Diante disso, a dor não pode ser transformada em curiosidade, nem a justiça reduzida a espetáculo. A igreja é chamada a contrariar a lógica do abuso: dar voz aos silenciados, amparar os feridos e buscar retidão com sobriedade, sem histeria nem omissão. O evangelho não apenas denuncia as trevas; ele acende luz para enfrentá-las. Em Cristo, Deus não negocia pessoas — Ele as resgata. E o Senhor afirma: "misericórdia quero, e não sacrifício" (Os 6.6). Que a verdade produza proteção, temor de Deus e justiça.

IGREJA BATISTA DO ESTORIL