14 de fevereiro de 2026
FAUNA E FLORA

Armadilhas fotográficas monitoram e ajudam fauna em Bauru

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo Jardim Botânico de Bauru
Onça parda em área de proteção do Jardim Botânico

Muito além da mera curiosidade, as armadilhas fotográficas têm como principal objetivo a preservação da fauna e da flora, por meio do monitoramento de animais silvestres e do meio ambiente sem interferência humana. São muito comuns na conservação ambiental e em pesquisas científicas. É por esse motivo que o Jardim Botânico e o Zoológico de Bauru estão adquirindo as câmeras.

A armadilha fotográfica funciona da seguinte maneira: a câmera é instalada em áreas estratégicas da mata ou de reservas e, no caso do Zoo, nos recintos dos animais. Ela é acionada por sensores de movimento e calor. Quando um animal passa em frente, a câmera tira fotos ou grava vídeos automaticamente, durante o dia e a noite.

A gerente administrativa e financeira do Zoológico, Samantha Bittencourt, explica que o uso de câmeras de monitoramento é fundamental para acompanhar o comportamento dos animais, especialmente durante a noite. Elas auxiliam na adaptação de espécies que chegam sem condições de retorno à vida livre, como os atobás, permitindo observar interações, evitar brigas e identificar conflitos sem a presença humana.

Segundo Samantha, o objetivo principal é garantir o bem-estar dos animais, compreender melhor seus comportamentos e apoiar decisões sobre reabilitação, permanência no zoológico ou possível retorno à vida livre. A câmera utilizada para esse monitoramento foi recebida por meio de doação.

As câmeras também ajudam a identificar animais de vida livre que circulam pelo zoológico, possíveis predadores e vestígios deixados no local, além de monitorar espécies de hábitos noturnos que não são vistas durante o dia.

"Temos cinco atobás (ave marinha comum na costa brasileira) no Zoo. Três vieram do Instituto Gremar, que é do Guarujá, e os outros dois vieram do Rio de Janeiro. Eles passam por um período de quarentena e adaptação e, quando juntamos todos no recinto, é um processo delicado. A gente tem que observar o comportamento entre os indivíduos", explica Samantha.

A diretora informa ainda que "por mais que sejam da mesma espécie, a gente precisa observar se vai haver briga. Durante o dia, os técnicos conseguem se revezar para monitorar esse comportamento, mas à noite utilizamos a câmera para observar se houve algum conflito".

As câmeras também ajudam a monitorar os "visitantes" noturnos do Zoo. Saber quem são e o que fazem dentro da área do parque é importante para o ecossistema, uma vez que o local está inserido em uma área de preservação ambiental.

Um exemplo é uma garça-branca-grande que adotou o recinto dos atobás como refúgio noturno. "Ela é de vida livre. Toda noite vem para o recinto dormir, é um lugar onde se sente segura. Como é um recinto aberto, outros animais podem entrar", destaca a diretora. De acordo com Samantha, no fim da tarde já é possível observar jacutinga, gavião-carcará, cutia e teiú, que são vistos todos os dias pelas ruas do Zoo.

Outro uso importante das câmeras é no manejo e acompanhamento veterinário, como no caso de animais em tratamento ou reabilitação, permitindo avaliar alimentação, atividade e recuperação.

"É uma ferramenta que a gente usa a nosso favor para observar o comportamento dos animais dentro do recinto, muitas vezes no cambeamento (estrutura interna atrás do recinto). Uma onça-pintada, uma onça-parda ou um tigre, por exemplo, têm cambeamento, onde passam o período da noite por questão de segurança e manejo alimentar, para fracionar e contabilizar a alimentação, além de auxiliar na recuperação de animais feridos que o Zoo recebe, geralmente vítimas de atropelamentos ou maus-tratos."

Quando chega um animal adulto de vida livre, é realizado todo o tratamento necessário. Os veterinários fazem acompanhamento, diagnóstico avaliativo e exames de sangue, raio-x e ultrassom. Quando há necessidade de intervenção cirúrgica, o tratamento é mais longo e o animal não pode retornar imediatamente à vida livre. Em alguns casos, as sequelas impedem a soltura.

Atualmente, o Parque está tratando um cachorro-do-mato que chegou no dia 30 de outubro. "Provavelmente vítima de atropelamento, ele passou por cirurgia, com colocação de placa e pino na pata traseira. A fratura ainda não está bem consolidada e, por isso, ele manca, mas está bem, estável, se alimenta normalmente e é tranquilo. Ele será observado pela câmera fotográfica para avaliar o desenvolvimento e a possibilidade de soltura", destaca Samantha.

Conhecer e preservar a biodiversidade

A implantação de armadilhas fotográficas no Jardim Botânico de Bauru, há cinco anos, tem sido fundamental para ampliar o conhecimento sobre a fauna local e fortalecer as estratégias de preservação ambiental. Inserido em um dos maiores fragmentos de Cerrado do estado de São Paulo e reconhecido como Refúgio de Vida Silvestre (RVS), o espaço passou a ir além da conservação da flora e assumiu o desafio de conhecer, monitorar e proteger também a fauna que depende diretamente desse ecossistema.

Segundo o gerente do Jardim Botânico, Luiz Carlos de Almeida Neto, o uso das câmeras surgiu da necessidade de entender o que realmente existe dentro da área protegida. "Para conservar, é essencial saber o que você tem, tanto da flora quanto da fauna. Sem conhecimento, não existe preservação", afirma.

Os registros trouxeram resultados surpreendentes, com a identificação de diversas espécies, inclusive ameaçadas de extinção, como a onça-parda e o tamanduá-bandeira, além de flagrantes de animais com filhotes. Para Luiz Carlos, isso comprova a importância ecológica da área. "Quando você registra onça e tamanduá com filhote, isso mostra que o Jardim Botânico é um refúgio seguro para reprodução. É um indicativo claro de que a reserva tem alta qualidade ambiental", destaca.

As armadilhas também revelaram uma grande diversidade de felinos, como jaguatirica e gato-mourisco, além de reforçarem a riqueza da biodiversidade local. Esses dados não apenas orientam a gestão da unidade, como também subsidiam ações práticas de conservação, como a Campanha de Atropelamento Zero nas estradas do entorno. "As câmeras nos fazem olhar para os dados e pensar: 'E agora, o que vamos fazer com essa informação?'", explica o gerente.

O guarda-parque Marcos César dos Santos Gomes é o responsável pela colocação das armadilhas fotográficas.