Meu terceiro artigo de uma série sobre o desmonte ferroviário no Brasil. Escrevo estas linhas fundamentadas na minha experiência de quase 40 anos de trabalho e militância no Sindicato dos Ferroviários, onde acompanhei de perto cada etapa desta destruição.
O prejuízo humano: Luto além dos trilhos
A privatização das ferrovias no Brasil não foi um erro de gestão ou uma fatalidade do destino; foi um massacre planejado. O que se operou na RFFSA foi uma amputação deliberada da inteligência industrial e o assassinato de um ecossistema social que pulsava no balanço dos vagões.
É preciso coragem para dar nome aos bois: essa tragédia é um projeto de negligência suprapartidário, uma política de terra arrasada que uniu todos os espectros políticos nas últimas décadas.
30 Anos de Inércia: A Noroeste como laboratório de um crime
Neste ano de 2026, completamos exatos 30 anos da primeira concessão ferroviária do país. Em junho de 1996, a nossa Noroeste do Brasil (SR-10) foi a primeira a ser entregue, servindo de bucha de canhão e laboratório do erro para um modelo destruidor. O que aconteceu aqui em Bauru foi o espelho fiel do que se deu em cada uma das outras ferrovias que compunham as 17 superintendências da Rede Ferroviária Federal.
Ao longo dessas três décadas, passamos por governos de partidos de direita, de centro, de centro-esquerda e gestões golpistas. É fundamental dizer claramente: tudo e todos passaram pelo poder, mas nenhum se preocupou em alterar esse quadro. Pelo contrário, a ferrovia virou um "fantasma de conveniência": o assunto só ganha importância e espaço nos discursos em ano eleitoral.
Passada a eleição, os trens voltam para o esquecimento e as promessas de revitalização descarrilam no deserto do descaso. A política de destruição e a falta de visão estratégica seguiram intactas, independentemente da cor da bandeira no palanque. O trilho foi tratado como estorvo e o ferroviário como custo operacional por todas as matizes ideológicas, sem exceção.
O Massacre em Números: Do Nacional ao Local
Para entender a magnitude do crime, é preciso olhar para a queda livre dos postos de trabalho em todo o território nacional:
• No Cenário Nacional: No final da década de 80, a Rede contava com cerca de 110 mil empregados em todo o país. No momento do leilão, esse número já havia despencado para 42 mil. Hoje, o que resta nacionalmente é um deserto técnico e humano.
• Na Nossa Noroeste (SR-10): Em 1991, a Noroeste ainda resistia com mais de 4.000 empregados. No ato da privatização, em 1996, restavam apenas 1.650.
• O Abismo de 2026: Hoje, a malha da antiga SR-10 sobrevive com um esqueleto pífio de menos de 200 empregados diretos para cuidar de 1.600 quilômetros de trilhos.
O Saber Assassinado: A Perda da Autonomia Técnica
A inteligência técnica ferroviária era a base da nossa autonomia técnica. Em várias regionais da RFFSA e também na antiga Paulista, existiam os Centros de Formação Profissional. A nossa escola Eng. Aurélio Ibiapina era o berço de mestres que não apenas substituíam componentes; eles os fabricavam.
Ao extinguir essas "escolinhas", o Brasil trocou criadores por meros dependentes de tecnologia importada. O conhecimento acumulado nas ferrarias e bancadas foi jogado no lixo da história em nome de um lucro que nunca chegou ao povo.
Mais que Trilhos: O Norusca Mantido pelo Suor do Trabalhador
A ferrovia mantinha uma estrutura de bem-estar social que o Estado jamais conseguiu replicar. A Noroeste não oferecia apenas salários; oferecia dignidade: O Nosso Norusca: Falar do Esporte Clube Noroeste é falar do sacrifício do ferroviário. O clube não caiu do céu; os ferroviários pagavam o clube. Eles doavam dias de salário e eram todos sócios por meio do desconto em folha. O Norusca era deles, por direito e por investimento. A "Panela de Pressão" era o epicentro social e artístico, onde aconteciam carnavais inesquecíveis e apresentações como o famoso "Periquitos em Revista" — o carnaval no gelo que encantava gerações e movia o orgulho de uma cidade inteira.
Saúde e Moradia
Bauru tinha o Hospital Salles Gomes, na Bela Vista, um símbolo de atendimento que cuidava da nossa gente. Bairros inteiros como a Vila Falcão, a Vila Dutra e a Bela Vista são filhos diretos dos trilhos.
O Sacolejo da Vida e a Cicatriz Urbana
O transporte de passageiros era o motor de uma economia de subsistência que o Estado decidiu tornar invisível. Quem não se lembra da aventura que era fazer o baldeio em Bauru rumo à Ferrovia da Morte? Jovens misturavam sonhos ao som de canções nos carros restaurantes.
Cada parada ao longo da linha era o sustento de famílias de ambulantes que viviam da "economia das janelas". Perder a vendedora de café, de pamonha e de salgados na plataforma não foi um detalhe estatístico; foi a destruição do prato de comida de milhares de famílias. Hoje, o que resta em Bauru é uma facada no coração e as lembranças de quem andou na “coreinha”
• O centro está às moscas, com hotéis e comércios 24 horas golpeados de morte pelo fim do fluxo humano.
• Prédios históricos são demolidos para virar estacionamentos de igrejas. A história de uma classe está sendo moída para dar lugar a pátios vazios de asfalto.
Assistimos agora ao capítulo final: a concessionária Rumo pretende devolver o trecho que ela mesma deixou apodrecer. Sem interessados devido ao estado terminal de sucateamento, a previsão é de que tudo feche ainda este ano.
Pare, Olhe e Escute: O veredito do abandono
Nas ferrovias, o aviso é claro: Pare, Olhe e Escute. Trinta anos depois da primeira martelada do leilão, esse alerta ganha um significado fúnebre. Se pararmos para analisar o rastro de destruição e escutarmos o silêncio das plataformas, a pergunta é uma só: quanta vida se perdeu nesse processo todo?
Perdeu-se a vida de quem tinha orgulho de ser ferroviário. Perdeu-se a vida de cidades que respiravam o trilho. Não queremos apenas museus ou mausoléus de ferro; queremos uma Ferrovia Viva, onde a tecnologia e a educação ocupem as estações e o trem volte a ser o pulso do desenvolvimento.
O trem parou, e o que restou foi o silêncio doloroso de uma cidade que luta para não esquecer a grandeza de quem ela foi. Afinal, o Brasil perdeu o trem da história? Ainda dá tempo de reembarcar?