25 de janeiro de 2026
OPINIÃO

IA como professor particular?

Por Wellington Anselmo Martins |
| Tempo de leitura: 2 min

O debate sobre inteligência artificial (IA) tem sido muito polarizado: ou amam demais ou odeiam totalmente. É preciso superar os extremos e observar, com mais calma, as reais limitações e os potenciais da IA, especialmente no que diz respeito à educação.

Comecemos lembrando que Platão lamentava que os livros são um tipo de mestre que fala, mas não responde. Textos escritos (sejam em pedra, pergaminho ou papel) são como fracos professores, que produzem longos monólogos, mas estão fechados para o diálogo. O filósofo clássico, assim, criticava os limites das antigas mídias, como o livro. Mas hoje há novas mídias. Mais socráticas, mais abertas ao diálogo: unindo inclusive escrita e oralidade.

A IA é uma biblioteca que responde. Ela não é apenas um livro, mas incontáveis livros e outros textos que, além de falar, também ouvem perguntas e ensaiam respostas, tal como um eficiente e crítico bibliotecário. A IA é uma espécie de biblioteca-bibliotecário que simula diálogos. Por isso, ela poderá servir no futuro como um tipo de socrático ciberprofessor particular ou ciberprofessor de reforço.

Entretanto, é claro que há conhecidas ressalvas importantes: IAs com vieses ideológicos, alucinações que inventam referências, grande necessidade de energia elétrica, fria robotização das relações humanas, mais burocratização da vida, excesso tecnicista e a lucrativa plataformização da escola ou universidade em meio a fracos resultados educacionais.

Além disso, de fato, a IA não substitui o professor humano nem mesmo na universidade, menos ainda na escola básica. E até o melhor simulacro de debate com a IA pode e deve estar inserido em dinâmicas reais de interação humana, como tradicionais e afetivas rodas de conversa entre alunos e professores. A IA, assim, na melhor hipótese, poderá ser como um útil tutor assistente de ensino — especialmente no ensino superior, mas decerto também com alguma função legítima no futuro ensino médio.

É necessário, portanto, desenvolver mais as IAs, porém sem tanta dependência do meio empresarial, que tem seus próprios interesses privados. Estados democráticos e universidades precisam criar novas IAs voltadas para a plena educação de todos e para a popularização dos saberes acadêmicos (filosofia, ciência, matemática...), ampliando e qualificando o acesso ao desenvolvimento humano.

IAs educacionais públicas, enfim, se realmente tornadas cada vez mais socráticas e críticas, devem então ser identificadas como inovadoras infraestruturas democráticas, assim como são as bibliotecas, escolas e universidades.