A empresa Cirmed Serviços Médicos, que tinha como um dos sócios o médico e o empresário Carlos Alberto Azevedo Silva Filho, acusado de matar a tiros dois colegas em frente a um restaurante em Alphaville (Barueri), na última sexta (16), tem três contratos ativos com o Hospital das Clínicas de São Paulo, da Faculdade de Medicina da USP, que somam quase R$ 250 milhões.
De acordo com dados apurados pela reportagem no Portal da Transparência do estado, a Cirmed presta serviços de assistência em anestesia para atender a diferentes unidades que integram o complexo do HC, o maior da América Latina. Na segunda (19), três dias após o crime, Silva Filho, que era um dos sócios fundadores da empresa, foi desligado da sociedade.
O crime ocorreu após um encontro entre os três médicos, seguido de discussão e agressões físicas no interior do restaurante. Após a saída do local, Carlos Alberto Azevedo Filho atirou várias vezes contra Luís Roberto Pellegrini Gomes, 43, e Vinicius dos Santos Oliveira, 35. Eles chegaram a ser socorridos, mas morreram no pronto-socorro. Azevedo Filho foi preso em flagrante.
Segundo o delegado Andreas Schiffmann, responsável pela investigação, o suspeito e uma das vítimas eram donos de empresas concorrentes de gestão hospitalar e disputavam contratos comerciais, conforme relato do suspeito aos investigadores.
"O problema deles já vinha de algum tempo. Disputavam diversos contratos, inclusive públicos e licitações", disse o delegado à Folha. O policial afirmou também que Carlos Alberto não citou nenhum contrato específico.
O caso tem repercutido no meio médico, uma vez que a Cirmed é hoje uma das maiores empresas prestadoras de serviços médicos no país, com atuação em pelo menos oito estados. Possui contratos com prefeituras e governos estaduais.
Procurado, o HC informou que a contratação dos serviços de anestesia com a Cirmed foi realizada por meio de licitação pública e dividida em quatro lotes para atender o Instituto Central, o InCor (Instituto do Coração), o InRad (Instituto de Radiologia), o IOT (Instituto de Ortopedia e Traumatologia), o ICr (Instituto da Criança e do Adolescente) e o IPq (Instituto de Psiquiatria). O contrato teve início em setembro de 2023.
O contrato prevê a prestação de serviços por meio de plantões. São 1.600 plantões mensais. O HC esclarece também que foi formalmente notificado pela Cirmed sobre alteração em seu quadro societário em 19 de janeiro, dia em que o médico Azevedo Filho foi retirado da sociedade.
"O hospital reitera ainda que a prestação de serviços essenciais está sendo regularmente executada, sem qualquer prejuízo à assistência dos pacientes", declarou.
A Cirmed também tem contrato com outra unidade de saúde do governo paulista, o Hospital Infantil Darcy Vargas, na capital paulista, no valor de R$ 8,4 milhões, também na área de anestesia, com término previsto para abril deste ano, segundo o Portal da Transparência.
Um contrato, no valor de R$ 3,27 milhões, também para prestação de serviços médicos em anestesiologia, no Hospital Estadual de Mirandópolis, terminou em maio do ano passado. Outro, no valor de R$ 7,96 milhões, que atendeu ao Hospital Heliópolis, na capital, também foi encerrado no mesmo mês de 2025.
Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde afirmou que todas as contratações realizadas pela pasta observam rigorosamente a legislação vigente, os princípios da legalidade, da transparência e do interesse público, bem como os procedimentos de controle e fiscalização previstos em lei.
O advogado da Cirmed, Rodrigo Navarro, afirmou que é "fantasiosa" a hipótese levantada pelo delegado de que o duplo homicídio tenha relação com disputas por contratos públicos.
Segundo ele, não há evidências de concorrência direta entre as empresas envolvidas. Navarro sustentou que os contratos da Cirmed com o poder público seguem trâmites regulares.
"Quem ganha uma licitação participou e cumpriu todas as regras. É um processo acompanhado pelo Tribunal de Contas e pelo Ministério Público", disse.
Para Navarro, é natural haver uma certa rixa entre empresas concorrentes, "onde alguém está ganhando e alguém está perdendo". "Existe uma animosidade por parte da concorrência como em qualquer lugar, em qualquer ramo. A saúde não é um setor com mais ou menos rivalidade do que outros."
Sobre o médico acusado, Navarro disse que o episódio foi uma conduta individual. "A execução do que aconteceu foi única e exclusivamente uma decisão dele. Não tem nada a ver com a empresa", afirmou.
Segundo ele, o então sócio já estava afastado da gestão desde julho do ano passado e foi formalmente retirado do quadro societário na última semana. "Ele já não faz mais parte do nosso contrato social", disse.
Ele classificou o crime como "horroroso" e disse que o acusado "vai pagar por isso", mas defendeu que a responsabilidade não pode ser estendida à companhia. "Ele vai pagar, não uma empresa que tem centenas de sócios e milhares de profissionais", afirmou.
Por fim, pediu cautela na divulgação de hipóteses antes da conclusão do inquérito. "O assassinato de reputações é algo que não tem volta. Se ao final ficar provado que não tem relação com contratos, como se recupera a imagem de uma empresa?", questionou. Segundo ele, "não existe nenhuma relação entre o que aconteceu e a empresa" e qualquer conclusão deve aguardar o resultado das investigações.