Donald Trump não é um acidente histórico. Ele é um sintoma. E, como todo sintoma grave, encontra paralelos claros em líderes do passado que confundiram poder com destino, governo com vontade pessoal e nação com espelho do próprio ego.
Napoleão Bonaparte acreditava ser maior que a França. Transformou a Revolução em trampolim para si mesmo, concentrou poder, redesenhou leis para legitimar sua ambição e tentou dominar a Europa convencido de que o mundo precisava ser organizado à sua imagem. A loucura de Napoleão não estava apenas nas guerras, mas na certeza absoluta de que a História lhe devia obediência. Trump opera no mesmo registro mental: acredita que instituições existem para servi-lo, que leis podem ser dobradas pela força da sua vontade e que o mundo deve girar em torno dos interesses americanos definidos exclusivamente por ele.
Nero, imperador romano, governava pelo espetáculo, pelo caos e pela indiferença diante da destruição. Enquanto Roma ardia, real ou simbolicamente, Nero cuidava da própria imagem, do aplauso e da manutenção do poder. Trump não precisou incendiar uma cidade; incendiou a confiança nas instituições, atacou a imprensa, desacreditou eleições e tratou crises globais como palco pessoal. Em ambos, a mesma lógica: o governante não é responsável pelo desastre o desastre é um detalhe inconveniente diante do ego.
A comparação com Adolf Hitler não é estética nem emocional, é estrutural. Hitler construiu sua ascensão demonizando grupos, criando inimigos internos e externos, vendendo a ideia de uma nação “ameaçada” que precisava ser purificada. Trump não construiu campos de extermínio, mas construiu narrativas. Transformou latinos em inimigos, migrantes em invasores, jornalistas em traidores, opositores em criminosos. A expulsão em massa de latinos, tratada como política pública, ecoa o mesmo princípio autoritário: a ideia de que certos corpos não pertencem ao espaço político, social ou humano da nação.
A obsessão territorial também é reveladora. O interesse pela Groenlândia, tratado como se fosse um ativo imobiliário, não foi uma piada diplomática foi a expressão nua de um pensamento imperial atrasado, no qual territórios existem para ser comprados, pressionados ou tomados. A retórica agressiva contra a Venezuela segue a mesma lógica: não se trata apenas de crítica ao regime de Maduro, mas da reafirmação da velha ideia de quintal geopolítico, onde soberania alheia é negociável diante da força.
O fio que une Trump, Napoleão, Nero e Hitler é o mesmo: a loucura do poder absoluto, a crença de que a própria vontade está acima da lei, da moral e da História. Todos eles criaram ou tentaram criar regras sob medida para si mesmos. Todos confundiram liderança com dominação. Todos acreditaram que o mundo precisava ser controlado não governado.
Trump não é Hitler, não é Napoleão e não é Nero. Mas caminha pelo mesmo terreno psicológico: o do líder que se vê como centro do universo, que transforma a política em instrumento de vingança, expansão e culto à personalidade. A História ensina que esse tipo de loucura nunca termina bem nem para o líder, nem para o mundo que ele insiste em tentar dominar.