18 de janeiro de 2026
COLUNISTA

Quando a igreja troca a glória de Deus pela aprovação social

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

Meu texto se apoia em um editorial de opinião publicado no Substack de John Lovell (fundador da Warrior Poet Society), em sintonia com as denúncias jornalísticas apresentadas por Megan Basham em Shepherds for Sale (Pastores à Venda). A preocupação central é pastoral: como líderes cristãos podem ser seduzidos não por uma heresia explícita, mas pela busca de aceitação cultural, prestígio institucional e acesso às elites.

A Tese - O Perigo do "Círculo Interno": Lovell usa a metáfora do "Círculo Interno" (The Inner Ring), de C.S. Lewis, para descrever uma patologia espiritual na liderança evangélica contemporânea (muitas vezes chamada de "Big Eva"). A tese é que o desejo de respeitabilidade — ser bem-visto pelo governo, pela academia e mídia — tem levado líderes cristãos influentes a comprometerem verdades essenciais da fé, trocando fidelidade por pertencimento. Essa tentação tem paralelo bíblico direto: "Porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus" (João 12.43). Quando a aprovação do mundo se torna critério de valor, pastores passam a agir como gestores e "porta-vozes aceitáveis", enquanto se tornam menos sensíveis às realidades espirituais que podem vir disfarçadas de "ciência", "progresso" ou "justiça social". A crítica não é contra engajamento público em si, mas contra o engajamento que exige, como preço, a diluição dos valores de Jesus.

O Núcleo da Denúncia - Bioética e Santidade: O ponto mais contundente do editorial recai sobre Francis Collins, cristão confesso que ocupou o cargo de diretor do NIH (National Institutes of Health), onde exerceu enorme influência sobre a agenda científica e bioética dos Estados Unidos: Financiamento de pesquisas envolvendo tecidos fetais de abortos tardios e apoio a políticas ligadas a procedimentos de transição de gênero em fetos. Aqui a questão é decisiva: Se as alegações factuais forem verdadeiras, a indignação moral do autor do editorial não é histeria, mas coerência com a Escritura. A Bíblia defende a dignidade da vida no ventre: "Tu me teceste no seio de minha mãe" (Salmo 139.13). Por isso, transformar restos humanos em "material de pesquisa", tratando corpos de bebês como instrumentos de laboratório, é retratado como uma forma moderna de sacrifício — uma civilização que sob linguagem sofisticada, repete antigas abominações. Em termos claros e sem rodeios, o editorial denuncia a suposta "neutralidade" e a complacência de muitos religiosos famosos, colocando-os sob a luz da exortação apostólica: "Não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas; antes, condenai-as" (Efésios 5.11).

Pastores à Venda - O autor do editorial acusa líderes conhecidos — como Tim Keller (in memorian), Russell Moore e Rick Warren — de falharem no discernimento ao tratarem Collins como uma figura admirável no cenário público, quase um "herói" para a fé. A denúncia é que esse endosso desarmou a Igreja, enfraquecendo sua capacidade de reconhecer e resistir a ideologias que atacam a Imago Dei, normalizando o que deveria causar santo temor. A imagem bíblica é a do atalaia: Se ele percebe o perigo e não avisa o povo, Deus o responsabiliza pelo que acontecer (cf. Ezequiel 33.6). A crítica sugere que alguns líderes, seduzidos pela linguagem polida do poder, deixaram de alertar os fiéis. O autor evoca Jesus quando diz: "O pastor que foge ao ver o lobo, não se importa com as ovelhas, não é pastor. (cf. João 10.12,13).

O editorial adota uma retórica intensa, por vezes hiperbólica, com imagens fortes ("demônios", "pacto fáustico", comparações extremas). O propósito é chocar o leitor e romper a apatia, argumentando que ciência sem moralidade bíblica pode se tornar instrumento de trevas. Contudo, uma resenha crítica deve reconhecer o risco: associações excessivas podem comprometer justiça na linguagem e gerar ruído, contrariando a advertência de Tiago de que a ira humana não produz a justiça de Deus (Tiago 1.19,20). Ainda assim, o autor sustenta que, diante de horrores morais, a "polidez" pode funcionar como anestesia.

O editorial é um chamado urgente ao arrependimento e ao discernimento. Ele pergunta, sem rodeios: quanto custa a nossa respeitabilidade? A Igreja não pode ter "comunhão entre luz e trevas" (2 Coríntios 6.14), nem buscar a aprovação do mundo como se isso fosse sinal de fidelidade. A liderança cristã não deve perseguir aplausos de elites, mas a aprovação do Cristo que foi rejeitado e crucificado "fora dos portões". Em resumo, mesmo com um tom duro, o texto serve como um alerta para que a Igreja volte a falar com coragem, proteja os mais frágeis e não troque sua fidelidade por um pouco de aceitação cultural.