17 de janeiro de 2026
SEGURANÇA PÚBLICA

Evasão de jovens PMs em SP dispara e acende alerta

Por Nélson Itaberá | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
JC Imagens
Dados oficiais mostram crescimento contínuo das saídas voluntárias de policiais desde 2020; chegou a 917 em 2025

A evasão de jovens policiais militares no Estado de São Paulo atinge patamar preocupante e de alerta para a gestão e garantia de efetivo frente aos desafios em segurança pública nos 645 municípios paulistas, incluindo a Capital. Registros oficiais de exonerações a pedido de PMs em 2025 apontam a saída de 917 profissionais, conforme publicações no Diário Oficial do Estado (DOE). O número já é quase três vezes maior do que os 356 que deixaram a carreira na segurança pública militar paulista em 2020 e seguiu crescente ano após ano (leia quadro ao lado).

Alto, o volume não contempla outras formas relevantes de redução do efetivo, como policiais que ingressam na reserva; afastamentos por licenças, sejam elas para tratamento de saúde ou por motivos pessoais, e óbitos ocorridos em serviço ou em período de folga.

Entre os principais causadores dos pedidos de desligamento feitos pelos próprios policiais está a falta de motivação para a permanência na carreira, uma vez que mudou perfil e, consequentemente, as expectativas daqueles que iniciam sua trajetória no mercado de trabalho, avaliam integrantes da própria carreira militar do Estado, que apontam outras razões.

De fato, situações distintas explicam os desligamentos voluntários, informa a Secretaria de Segurança Pública (SSP), por meio de nota. "A Instituição acompanha esse cenário de forma permanente, com foco no aperfeiçoamento da gestão de recursos humanos, na valorização da carreira policial e no fortalecimento dos mecanismos de controle interno", consta do texto enviado (leia mais abaixo).

NÚMEROS

Em uma rede social exclusiva de PMs, com mais de 40 mil membros, de todas as patentes (da ativa e aposentados), foi publicado, neste início de ano, quadro completo das exonerações a pedido, ou seja, aquela em que a pessoa exerce o direito de deixar a carreira solicitando sua exoneração.

Se em 2020, com João Doria no governo, 356 militares pediram para deixar a carreira, em 2021, foram 544 policiais que pediram desligamento. E o volume só aumentou nos anos seguintes: 669 em 2022; outros 676 em 2023 e 806 em 2024. Para lembrar, Doria deixou o governo em abril de 2022. Rodrigo Garcia, seu então vice, fechou aquele mandato. Tarcísio de Freitas assumiu em 1 de janeiro de 2023. Em seu primeiro mandato, portanto, permanece a escalada de profissionais desistindo de ser policial militar. A maioria dos que desistem é jovem egresso na corporação.

Para o ex-comandante-geral de Polícia do Estado de São Paulo, coronel Benedito Roberto Meira, o quadro é muito preocupante e exige repensar o formato de concursos e plano de carreira. "Primeiro é preciso observar que estamos falando, sobretudo, do ingresso de jovens. E esse público mudou seu perfil, ou comportamento, em relação à expectativa pessoal diante da carreira militar. O mercado de trabalho oferece, já há alguns anos, inúmeros atrativos que influenciam a decisão deste jovem policial em pedir exoneração", observa.

Coronel Meira avalia que o jovem atual não pensa, como as gerações anteriores, em estabilidade. "Ao contrário, é muito comum este jovem pensar em retornos mais imediatos. E a ampla oferta de empregos, em uma diversidade de áreas como tecnologia, e mesmo empreendedorismo em segmentos comerciais (pequenos negócios), o estimulam a deixar a carreira. Mas não é só isso", adverte.

NA BALANÇA

Para o ex-comandante, os fatores risco crescente da profissão, salário menos atrativo do que outras oportunidades na fase de juventude e formato do concurso reforçam as causas para o aumento exponencial de desligamentos. "O jovem passa no concurso e vai para a rua enfrentar situações de maior potencial de risco para sua segurança. Tende a se preocupar com segurança de sua família. O salário proporcional oferecido compete com oportunidades bem mais vantajosas em várias frentes, já no início. E a carreira de policial militar impõe sacrifícios adicionais exatamente nesta fase inicial", destaca.

Benedito Meira aponta para ainda para o que chama como "calvário dos concursos na PM". "Veja, o jovem passa no concurso e tem de ficar um ano na escola da Capital para sua formação. O edital exige que, depois de formado, ele fique pelo menos mais um ano na Capital ou Grande São Paulo, ao começar a trabalhar. E, mesmo depois de passar no concurso e começar a trabalhar, ele fica, em média, mais três ou quatro anos na lista de espera para ter a oportunidade de voltar para a casa. E a maioria é do Interior", explica.

De acordo com o coronel, atualmente está caindo muito o número de jovens que se inscrevem no concurso quando leem as regras do edital. "E os dados mostram a evasão cada vez maior de que quem passou no concurso e o longo tempo para tentar voltar para sua família, ou a cidade onde mora. Ele pede baixa", complementa. "Concurso de PM para 2.500 vagas tinha 90 mil inscritos. Hoje tem a metade. E o Estado enfrenta dificuldade em preencher todas as vagas abertas", menciona.

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