O novo Relatório de Projeções Fiscais do Tesouro Nacional expõe, com a frieza dos números, uma realidade que o Brasil insiste em adiar: a dívida bruta do governo geral pode chegar a cerca de 95% do PIB ao longo dos próximos dez anos, caso a legislação atual seja mantida e nenhuma medida adicional de controle de gastos ou aumento de receitas seja adotada.
As estimativas aparecem em diferentes cenários apresentados pelo Tesouro, todos convergindo para o mesmo alerta: o país segue em trajetória de deterioração fiscal preocupante.
O relatório mostra que fatores como a exclusão parcial dos precatórios das regras fiscais e o crescimento contínuo de despesas obrigatórias ampliam o espaço para gastos no curto prazo, mas agravam a dinâmica da dívida no médio e longo prazo. Em seu cenário mais adverso, a dívida chega a 95,4% do PIB em 2035; mesmo em projeções consideradas mais benignas, ela encosta em 89% do PIB e permanece elevada por anos.
Essa tendência não pode ser tratada com normalidade. Na minha avaliação, este é o maior risco econômico que o Brasil enfrenta — não é a inflação, nem o câmbio, nem a desaceleração global. É a incapacidade crônica de controlar os gastos públicos, aliada à escolha recorrente por políticas fiscais frouxas que empurram o problema para o futuro.
O governo sinaliza repetidamente que a solução para fechar as contas está no aumento da arrecadação. Ainda que novas receitas possam ter algum papel no curto prazo, essa visão é limitada e ineficaz para corrigir distorções estruturais.
O próprio Tesouro ressalta que, mesmo com reforço de receitas, a dívida continua avançando. A insistência no aumento da carga tributária — já entre as mais altas do mundo emergente — sufoca o setor produtivo, inibe investimentos e reduz a capacidade de crescimento da economia. Em vez disso, o país precisa encarar os verdadeiros pontos de estrangulamento: a necessidade urgente de uma reforma do Estado que reduza o custo da máquina pública, modernize sua estrutura e elimine gastos ineficientes.
Uma reforma administrativa ampla, que racionalize carreiras, simplifique estruturas e reduza privilégios, abriria espaço para que o orçamento deixasse de ser praticamente todo absorvido por custeio e despesas obrigatórias. Esse espaço hoje comprimido poderia finalmente ser direcionado para investimentos — infraestrutura, educação, inovação — que geram crescimento e aumentam a produtividade.
As projeções do Tesouro mostram que as despesas obrigatórias crescem mais rápido que o limite fiscal e pressionam a dívida ano após ano. Sem rever esse modelo, qualquer tentativa de equilíbrio se torna ilusória.
Há quem argumente que o nível elevado dos juros é o que alimenta a dívida — a declaração recente do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, vai nessa direção. Mas esse raciocínio inverte a lógica. Os juros são altos também porque a dívida é elevada e continua crescendo.
Em um país que convive com déficit recorrente, metas fiscais frágeis e expectativas fiscais instáveis, a taxa de juros se torna um instrumento não apenas para controlar a inflação, mas também para manter a atratividade na rolagem da dívida pública.
Se o governo demonstrasse compromisso firme com a disciplina fiscal — especialmente pelo lado do gasto — as expectativas melhorariam, o prêmio de risco cairia e, consequentemente, os juros poderiam ser reduzidos de forma sustentável.
O relatório do Tesouro não é uma peça técnica isolada; é um aviso claro. Com a dívida caminhando para 95% do PIB, o país se aproxima de um ponto em que a eficiência da política econômica fica comprometida e a margem de manobra se estreita perigosamente.
A escolha estratégica está diante de nós: seguir elevando tributos, penalizando quem produz, ou reformar o Estado para torná-lo mais leve, eficiente e capaz de investir no futuro.
O caminho que o Brasil escolher determinará não apenas a trajetória da dívida, mas também a capacidade do país de gerar crescimento sustentável, empregos e bem?estar social.
Ignorar esse alerta pode custar muito mais caro — e por muito mais tempo — do que qualquer ajuste que se faça hoje.