11 de janeiro de 2026
COLUNISTA

Por que a dor de dente é insuportável?

Por Alberto Consolaro |
| Tempo de leitura: 3 min
Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC
Na polpa, a rede vascular é delimitada pelas paredes duras e inelásticas de dentina, concentram muito os mediadores da dor sobre os nervos


Em todos os lugares que têm sangue, pode ter inflamação. Nos tecidos agredidos, os vasos aumentam a quantidade local de sangue, pois substâncias e células de defesa chegam com ele.

Os vasos sofrem modificações aumentando a permeabilidade, ficam mais porosos. Depois de 90 minutos as células de defesa chegam e acumulam na área. Também chamadas de leucócitos, fagocitam os agressores como bactérias e seus produtos, células mortas, partículas, fungos etc. As substâncias de defesa são os anticorpos ou imunoglobulinas, enzimas como complemento, etc.

As células demoram 90 minutos, mas as substâncias chegam na hora que ocorre a agressão. As células chamadas mastócitos liberam uma grande quantidade de histamina. Os vasos dos tecidos, se fossem comparados com alguma coisa, seria o espaguete como um emaranhado ao sugo.

A histamina atua nos vasos da região aumentando a permeabilidade e vai deixar sair muitas substâncias do sangue. Estas substâncias acumuladas na forma de líquidos é o edema inflamatório, ou exsudato ou simplesmente inchaço. Ela vai agir intensamente até 1 hora depois da agressão, mas não provoca dor, no máximo promove uma coceira ou prurido. Mas, depois de uma hora, o sangue levou para o local muitas substâncias para formar as cininas.

DOR

As cininas vão atuar nos vasos, mas muito mais nos nervos e provocar dor, muita dor. Elas vêm do sangue, de uma substância que faz parte do plasma chamada de cininogênio, o que me lembra o gênio que descobriu as cininas para o mundo, o brasileiro “quase-Nobel” Mauricio Rocha e Silva, um professor da USP em Ribeirão.

Elas vão atuar nos vasos e nervos provocando muito edema e dor durante 5 a 6 horas depois da agressão. Depois, seu efeito começa cair, mas a defesa precisa provocar edema e dor, pois a pessoa agredida ainda precisa tomar providências, como procurar profissional ou tomar remédio.

Depois de 5 a 6 horas, as células de defesa e as células do local agredido começa a liberar muita prostaglandinas, uma substância que potencializa o efeito das cininas nos nervos e vasos. Aí vai doer muito e enquanto durar a agressão. Se não parar a agressão, vai ser difícil parar a dor e o edema.

DENTE

O edema provoca um aumento de volume da área, mas isto não acontece no tecido que fica dentro dos dentes chamado polpa ou o “nervo do dente”. Lá não tem só nervo, tem um tecido conjuntivo completo com vasos e muitas células e funções. A polpa não tem como inchar, pois, suas paredes ao redor são de dentina, um tecido mineralizado que não cede a esta pressão do edema cheio de cininas e prostaglandinas.

Na inflamação da polpa ou pulpite, muito mais moléculas de cininas e prostaglandinas estarão em contato com os nervos, são muito mais moléculas por milímetro quadrado do que uma inflamação no lábio.

Quando a dor de dente é muito forte, quase sempre vai ter que abrir o canal onde fica a polpa inflamada. Quando perfurar, a dor passará na hora, um alivio imediato, pois o edema extravasa e as cininas e prostaglandinas que estavam em elevadíssima concentração bioquímica, se reduzem imediatamente.

A vida molecular ativa de cininas e prostaglandinas duram alguns segundos e ao extravasarem cai em nível que não induz mais aquela dor alucinante de dente.  Por esta razão que, em geral na dor de dente, medicamentos analgésicos em geral não surtem efeito, pois a concentração dos mediadores onde atuam é muito alta!

REFLEXÃO FINAL

Antigamente como não se tinha conhecimento molecular para compreender a dor na inflamação, se achava que a dor pulpar de dente era provocada pela pressão direta sobre os filetes neurais que ficavam “asfixiados” em ambiente fechado.

Mais antigamente, se achava que a dor era provocada por “gases” que se produzia na inflamação e pressionava os nervos da polpa. Entre os mediadores da inflamação, a grande maioria são substâncias no estado líquido, apesar de existir alguns mediadores gasosos, mas não a ponto de pressionar nervos e nem estão envolvidos na geração bioquímica da dor.