13 de março de 2026
OPINIÃO

Lobos na ceia de Natal

Por Lucius de Mello | O autor é doutor em Letras pela USP e Sorbonne Université-Paris. Autor da tese A Bíblia segundo Balzac: Deus, o Diabo e os heróis bíblicos em A Comédia Humana. Jornalista, escritor e finalista do Prêmio Jabuti em 2003
| Tempo de leitura: 4 min

Por essa, nem o francês Charles Perrault, autor mais conhecido por registrar e  popularizar o conto “Chapeuzinho Vermelho” nem o australiano Joseph Jacobs, criador  da versão mais famosa de “Os Três Porquinhos”, esperavam. A clássica figura do lobo  mau, quem diria, se arrependeu, virou vegetariana e entrou no clima fraterno e cristão do  Natal. Roubou a cena do Papai Noel. Essa virada na imagem de um dos mais temidos  personagens das histórias infantis - que transforma o vilão da floresta, num herói  improvável, foi idealizada numa a campanha publicitária que viralizou em minutos e  conquistou milhões de fãs em todo mundo.

Lançado, recentemente, no começo de dezembro, em três dias, o vídeo já teve mais  de 30 milhões de visualizações. Criado pela agência Romance sediada em Paris e pelo  Illogic Studios, o filme é cem por cento francês, sem Inteligência Artificial e foi elaborado  para a ser a grande mensagem natalina de fim de ano da rede de supermercados francesa  Intermarché. Com dois minutos e trinta segundos, o anúncio mistura atores e desenho  animado para contar a história de um lobo que se sente mal-amado e que decide virar  vegetariano para conquistar a amizade dos outros animais e, assim, ter uma festa de Natal rodeado de amigos.

“Quando a Intermarché nos procurou para criar um novo filme de Natal,  escolhemos a animação por seu toque mágico”, explica Victor Chavalier, redator da  Romance. O lobo, diz Chavelier, “é um personagem muito humano. Ele se sustenta  sozinho e está cansado de ser lobo mau. Assim que fizemos o roteiro consultamos o  estúdio de animação para dar vida a ele”.

Tudo começa numa tradicional e animada reunião de família, na noite da celebração  cristã, na qual o tio presenteia o sobrinho, de máximo seis anos, com um lobo de pelúcia.  A criança se assusta e rejeita o brinquedo. A mãe tenta amenizar o constrangimento da  cena e diz: “Ele tem medo de lobos”. O tio, então, explica ao menino que aquele era um  lobo bom, regenerado; ele improvisa e começa a contar a todos a história do bicho que se  arrependeu de suas maldades, deixou de ser carnívoro e se tornou vegetariano.

Neste momento, os atores são substituídos por desenhos. Entra o lobo mal-amado caminhando  solitário sobre a neve na floresta. Ao se aproximar da bicharada que montava a árvore de  Natal, todos saem correndo; um porco espinho mais corajoso comenta: “também se você  não comesse todo mundo!” E o lobo responde: “Eu sou um lobo. O que você quer que eu  coma?” E o porquinho explica: “Não coma gente nem bichos, há cenouras, cogumelos,  frutas, legumes…” E a fera pergunta: “Como se caça legumes?” O lobo, então, volta solitário para sua toca e começa a ler livros sobre pratos vegetarianos. Rapidamente  prepara e consome receitas com champignons e castanhas, tortas com alho-poró, fica  viciado em cerejas que deixam sua boca toda vermelha; o que ainda causa um certo terror  aos vizinhos... Mas a verdade, é que o lobo, outrora mau, convence a todos que se tornou  inofensivo e acaba sendo aceito para se sentar à mesa na ceia de Natal da floresta. O lobo  sorridente brinda com os novos amigos e, assim que termina essa cena, voltam os atores;  surge o tio terminando de contar a história à família; ele sorri ao perceber que o sobrinho  já dormia abraçado ao lobo de pelúcia. No final do vídeo, surge a mensagem da rede de  supermercados Intermarché: “Todos nós temos uma razão para comer melhor.” Importante realçar que o número de vegetarianos na França é muito baixo. Menos de 5%  da população francesa são adeptos ao vegetarianismo. Já no mundo, segundo estimativas  internacionais, são 625 milhões de vegetarianos – 5 a 8% da população do planeta.  Acredito que o lobo arrependido do comercial, com todo esse sucesso, vá incrementar  esses índices.

Ainda neste Natal, a imagem do lobo bom da Intermarché deve ser imortalizada  em brinquedos de pelúcia. O filme publicitário foi todo sonorizado com a canção “Le  mal aimé” de Claude François, sucesso em 1974 e que, agora, está no topo das  plataformas de streaming. Música que deixa o protagonista da campanha com um ar  ainda mais carente.

De infantil e lúdico, o anúncio não tem nada. Além de uma tentativa de convencer  um menino a perder o medo do presente de Natal ou uma estratégia comercial para atrair  mais consumidores para uma rede de supermercados ou ainda para melhorar nossos  hábitos alimentares, essa campanha sim, resgata, em todos nós, o verdadeiro espírito natalino; ilumina o amor, a empatia, o sacramento do perdão, o respeito; no entanto,  acima de tudo isso, é um espelho impiedoso a nos oferecer a chance de encarar nossos  próprios medos e imperfeiçoes e conviver com eles; a oportunidade preciosa do  autoconhecimento, da reinvenção e do recomeço que precisamos sempre nos permitir  para nos tornarmos pessoas melhores, mais humanas e mais felizes.

O lobo inquieto, reflexivo e mal-amado representa um pouco de cada um de nós.  Como sugeriu o alemão Herman Hesse (1877-1962), em seu clássico O Lobo da Estepe,  a dualidade homem-lobo é rasa e simplificadora. Porém, segundo Hesse, dentro de cada  ser humano há centenas, milhares de outros seres, enfim, a personalidade humana está  sujeita a uma infinidade de atitudes ramificada numa complexa rede de diferentes  labirintos.  

Link para assistir ao vídeo:
https://youtu.be/Na9VmMNJvsA?si=_Y7fOCJnBFCcQEj0