03 de março de 2026
INTOLERÂNCIA

Espaço de Umbanda de Bauru é atacado e denuncia racismo religioso

da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução de vídeo
Motociclista suspeito de arremessar o artefato

Um ataque com explosivo contra o prédio que abriga o Instituto Cultural Aruanda, onde funcionam um terreiro de Umbanda e a sede da plataforma Umbanda EAD, em Bauru, resultou em registro na Polícia Civil para que seja investigada uma ocorrência de racismo religioso, conforme denúncia da entidade. O caso ocorreu por volta do meio-dia desta quarta-feira (3), quando um homem parou de moto diante da fachada, acendeu um artefato e o arremessou diretamente contra a porta de vidro do imóvel.

Toda a ação foi registrada por câmeras de segurança. No momento da explosão, duas funcionárias trabalhavam na sala administrativa logo atrás da entrada alvo do ataque. O barulho foi ouvido em todo o prédio, assustando os presentes, inclusive os animais que vivem no imóvel, informou a entidade, por meio da assessoria de imprensa.

De acordo com o departamento de comunicação, embora ninguém tenha ficado ferido, a equipe relatou medo de retornar ao trabalho. A instituição aponta que o ataque tem indícios evidentes de motivação religiosa.

A fachada do prédio exibe o nome “Umbanda EAD”, o que faz com que o local costume receber oferendas, registros de foto e vídeo e, por vezes, agressões verbais. Na avaliação da direção do instituto, foi justamente a identificação religiosa na fachada que motivou a ação do agressor.

O imóvel abriga tanto o terreiro quanto a sede administrativa da plataforma, em uma área integrada voltada à preservação cultural e espiritual. Para a direção, o ato foi voltado ao espaço sagrado e não a uma empresa comum. “Foi um ataque contra uma instituição de Umbanda e contra o terreiro”, reforçam.

Para a instituição é importante que o episódio seja tratado como racismo religioso e não intolerância religiosa. Isso porque o conceito de racismo se refere à violência, discriminação e criminalização contra religiões de matriz africana, como Umbanda e Candomblé. “Racismo religioso descreve exatamente o que aconteceu. É crime inafiançável e imprescritível”, destaca a entidade.

Por conta de situações semelhantes ocorridas recentemente, o Conselho Municipal da Comunidade Negra de Bauru publicou uma nota de repúdio. Veja na íntegra:


NOTA DE REPÚDIO


O Conselho Municipal da Comunidade Negra de Bauru, junto ao Movimento Inter-religioso, manifesta seu mais profundo repúdio aos inúmeros casos de ataques, violências e depredações sofridas por terreiros e casas de culto das religiões de matriz africana em nosso município. Esses episódios, além de afrontarem a liberdade religiosa garantida pela Constituição Federal, representam ataques diretos à dignidade humana, ao patrimônio cultural afro-brasileiro e ao direito de existência dessas comunidades.

Repudiamos igualmente os frequentes casos de discriminação e impedimento de acessos enfrentados por praticantes das religiões de matriz africana em comércios, bem como a recusa de motoristas de aplicativos em realizar o transporte de pessoas identificadas por seus trajes, objetos sagrados ou por sua aparência. Tais condutas configuram discriminação religiosa e racial e não podem ser naturalizadas.

O Conselho reafirma seu compromisso inegociável com o combate ao racismo religioso, com a defesa da liberdade de culto e com a promoção de políticas públicas que garantam a segurança, o respeito e a proteção das comunidades tradicionais de matriz africana. Exigimos das autoridades competentes a apuração rigorosa de todos os casos denunciados, a responsabilização dos envolvidos e a implementação de ações efetivas de prevenção à intolerância religiosa. Seguiremos firmes ao lado das comunidades religiosas afro-brasileiras, promovendo diálogo, acolhimento, proteção e justiça.