14 de maio de 2026
AUTOS & CIA.

Gasolina e diesel avançam 7x mais que frota elétrica

da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
Frota elétrica cresce, mas não o suficiente

A cidade de São Paulo contabilizou 176 mil novos veículos movidos a combustíveis fósseis de 2019 a 2025, o equivalente a sete vezes os registros de automóveis elétricos no mesmo período. Em meio à expansão da frota poluente, a capital paulista precisaria retirar de circulação ao menos 131,7 mil carros, ônibus, motos e caminhões por ano para zerar as emissões do transporte rodoviário até 2050.

É o que mostra um levantamento da Folha de S.Paulo com base em dados do Detran-SP (Departamento Estadual de Trânsito). O cálculo leva em conta a eliminação gradual da frota abastecida exclusivamente com diesel ou gasolina, que geram gases do efeito estufa e agravam as mudanças climáticas.

São Paulo tem 7,3 milhões de veículos, dos quais 3,3 milhões (45,2%) são movidos apenas a combustíveis fósseis e 3,4 milhões (46,5%) são flex e aceitam etanol ou gasolina.

ELÉTRICOS

A frota puramente elétrica cresceu quase 24 vezes em seis anos, passando de 1.087 em 2019 para 25,9 mil em setembro de 2025.

Mesmo assim, a cada novo veículo elétrico registrado em São Paulo no período, outros sete abastecidos com diesel ou gasolina ganharam as ruas.

O transporte é a principal contribuição da cidade para o aquecimento global.

Em 2023, o setor respondeu por 65% das emissões do município, segundo o Seeg (Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa).

O patamar observado naquele ano, de 9,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e), foi 10% superior ao de 2008.

O aumento expressivo na quantidade de automóveis flex nos últimos anos, com 604 mil novos registros desde 2019, não se traduziu em uma redução na queima de gasolina.

Em 2023, as emissões de CO2e causadas por esse combustível estavam 11% acima dos níveis de 2008. O menor valor da série histórica foi registrado em 2020, durante a pandemia da Covid-19.

Felipe Barcellos, pesquisador do Seeg, diz que a tendência é de expansão das emissões dos transportes, devido ao crescimento das vendas de carros e do uso de combustíveis fósseis.

A capital paulista tem a meta de se tornar neutra em carbono até a metade do século 21, conforme o PlanClima, documento que orienta as ações da prefeitura na agenda climática.

O secretário-executivo de Mudanças Climáticas, José Renato Nalini, afirma que esse objetivo depende de restringir a circulação da frota poluidora, além de estimular o transporte público e o abastecimento dos veículos flex com etanol.

O PlanClima prevê a criação de uma zona de emissão zero na cidade até 2030, com trânsito permitido apenas para veículos limpos em regiões específicas - algo similar ao que Londres adota desde 2019.

Antes mesmo de ser amplamente discutida pelos paulistanos, a medida já desperta preocupação com o possível desgaste político.

"É complicado, porque não sabemos como a população vai responder a isso", diz Nalini.

"As opções políticas têm de se basear no consenso e na aceitação pela sociedade. A população precisa pedir aquilo que é mais conveniente. Às vezes, o gestor tem ideias que não emplacam, não são aceitas pela maioria."

Pedro Jacobi, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP, afirma que São Paulo dificilmente escapará de adotar a medida, caso queira cumprir a meta de zerar as emissões.

"Não vejo outras soluções a não ser essas que vão ser consideradas autoritárias, e o prefeito que propuser pode já buscar outro emprego, porque não vai ser reeleito", diz.

Jacobi acompanhou o desenho do rodízio na capital paulista na década de 1990 e se lembra de que a medida foi concebida para reduzir a poluição atmosférica.

Segundo ele, a proposta original abrangia a região metropolitana e proibia a circulação de dois finais de placa em todo o dia, mas deu lugar a uma versão mais branda, com restrição apenas no centro expandido e durante os horários de pico.

"Virou esse rodízio meia boca, que é um bom captador de dinheiro [com multas], mas muito pouco resolve o problema de transporte e emissões da cidade", diz. 

Incentivo ao transporte coletivo

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) havia prometido em 2021 que São Paulo teria cerca de 2.600 ônibus elétricos até o final de 2024. Atualmente, a cidade conta com 961, sendo 760 deles movidos a bateria e 201 trólebus (com cabos aéreos). O total representa 8% dos 12 mil coletivos da frota em circulação da SPTrans.

A gestão municipal diz que a cidade chegará a 1.200 ônibus elétricos até o final deste ano e informa que instalou sistemas de armazenamento de energia em baterias nas garagens. A nova tecnologia, chamada Bess (na sigla, em inglês), busca reduzir a dependência da concessionária Enel para a recarga dos veículos, segundo a prefeitura.

A Câmara Municipal aprovou em 2023 um projeto de lei proposto por Nunes que permitiu o uso de recursos do Fundurb (Fundo de Desenvolvimento Urbano), originalmente voltado para mobilidade e habitação, para obras de pavimentação e recapeamento de asfalto.

Rodrigo Iacovini, diretor executivo do Instituto Pólis, afirma que o financiamento deveria ter sido destinado a ações mais comprometidas com a descarbonização.

"No momento em que o prefeito Ricardo Nunes promove o maior programa de asfaltamento da história, que foi um carro-chefe da sua eleição no ano passado, e tira dinheiro do Fundurb para fazer isso, ele está priorizando o transporte individual por carro poluidor em detrimento do transporte coletivo limpo", diz.

Investimentos em descarbonização

A Prefeitura de São Paulo informa que foram aprovados R$ 300 milhões em investimentos para ações de descarbonização por meio do fundo em 2025 para qualificação de calçadas, implementação de ciclovias, corredores e terminais de ônibus.

A vereadora Marina Bragante (Rede) diz que a prefeitura não tem um plano claro para reverter a preferência por automóveis poluentes. "É uma mensagem dúbia, de que é importante mitigar as emissões, mas transformar a nossa vida investindo significativamente em transporte público ainda não é prioridade dessa gestão."

O Metrô declara que as obras de expansão em andamento e as linhas em licitação ou projeto levarão a uma redução anual de cerca de 2,5 milhões de toneladas de gases do efeito estufa até 2040.