13 de março de 2026
OPINIÃO

Filosofando com Rubem Alves

Por Dra. Maria da Gloria De Rosa | A autora é Pedagoga, Jornalista. Advogada. Profa. doutora aposentada UNESP
| Tempo de leitura: 3 min

Se você nunca ouviu falar de Rubem Alves, vou apresentá-lo com muito prazer. Não quero me privar desta oportunidade de colocá-lo em contacto com esse amante sensível e perspicaz da beleza. Escritor que exalta as artes, ama e ressalta a natureza, cria metáforas poéticas, revela o divino nas pequenas coisas. E isso não sou apenas eu que digo, são seus apreciadores, aqueles que seguem seus livros onde sobejam páginas de encantamento e sensibilidade. Infelizmente, ele já nos deixou, mas não seus numerosos escritos em obras plenas de momentos de enlevo e sutilezas.

Quando me sentei diante deste note book, pensei em escrever algumas linhas sobre o momento atual da política brasileira. Depois desisti, por que mexer nesse vespeiro, cheio de insetos venenosos e letais? Quem sabe, em outro dia em que meu espírito esteja menos ferido e sensível. Então, vamos às belezas dos escritos de Rubem.

É ele quem diz: ”sou um homem de muitos amores. Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Eles têm fome de ver. Encantam- se com tudo.”

Era um homem de atitudes simples e que deixava transparecer nesse modo igualmente simples de encarar a vida toda a sua grandiosidade de amar, mesmo porque as pessoas são aquilo que elas amam. Não procurava a razão das coisas, e citava Angelus Silesius: “a rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce.” Por que procurar o xis das questões? Nem tudo  tem explicação, “a criança não procura razões atrás das estrelas. Quem faz isso são os adultos.” E não é verdade tudo isso? Por que, em vez de procurar o significado das coisas não procurar a sua magia, ou o que elas têm de divino? E, então, ele recorre a Guimarães Rosa: “o que eu vou saber sem saber eu já sabia.”

Em um de seus escritos, ele fala de seu relacionamento com Leonardo Boff: “O Leonardo e eu éramos amigos há muitos anos, em razão de sofrermos ambos de uma doença incurável: uma relação de ódio de fascínio com a teologia. Essa doença dá grande coceira nas ideias, coceira que chega a sangrar.” Então, ao sentir essa sua inquietude, dá vontade de gritar que meio mundo sofre dessa mesma coceira, meio mundo sangra por incapacidade, por pequenez, por insuficiência, por desejar o mar, como dizia aquele outro poeta, prendendo-nos à terra.

Rubem Alves, todavia, compreendendo a intranquilidade de nossas limitações, aconselhava, nessas horas de inquietude e de trevas a buscar lenitivo na magia e no encantamento: “Os artistas me fazem acreditar em anjos. Deus de vez em quando tem dó de nossa condição e nos envia esses seres inexplicáveis para que experimentemos a alegria do mundo de beleza perfeita.”

Assim era Rubem Alves, simples, mas profundo; antenado, atento, bem- informado, mas etéreo.  Vamos terminando com palavras dele: “Não tenho medo da morte. O que sinto é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui...  Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão.”

Hoje, eu também fico por aqui. Como disse Rubem Alves, quando escrevemos, o curto às vezes é maior do que o comprido. Há poemas que contêm um universo. Espero que este texto tenha lhe acrescentado muito.