A ucraniana Galina Bogdanova, 42 anos, que vive em Bauru há 13 anos, deseja acolher em sua casa, na Sem Limites, jovens na faixa dos 24 anos, que vivem praticamente “presos” dentro de casa na Ucrânia, país governado por Volodymyr Zelensky. Segundo ela, esses rapazes são obrigados a se alistar no Exército e, se encontrados nas ruas, são recrutados compulsoriamente para o front, muitas vezes sem sequer a família ser avisada.
“A partir dos 18 anos, nenhum homem pode deixar o país. Eles evitam sair de casa, com medo de serem ‘arrastados’ para a guerra. Nem ao mercado vão. Quando precisam sair, um avisa o outro por mensagem para saber se há risco. Eu queria muito dar refúgio a eles”, afirma Galina.
De acordo com a ucraniana, esses jovens não foram preparados para lutar, ainda mais em uma guerra tão sangrenta, que, em vez de arrefecer, tem se intensificado. Por isso, muitas famílias desejam o fim do conflito, na tentativa de preservar a vida dos filhos.
“Eles não estão aguentando mais”, desabafa. Uma de suas primas, por exemplo, não consegue deixar o país justamente por causa dos filhos. Recentemente, uma bomba explodiu próximo à casa onde vivem, estilhaçando todas as janelas. “Mas a casa continua em pé. É isso que importa”, acrescenta.
O ex-marido de Galina, pai de sua filha — que mora com ela em Bauru —, foi alvejado duas vezes na cabeça durante o conflito, mas sobreviveu. Atualmente, ele está casado com uma médica e pediu para ocupar a antiga casa da ex-esposa, em Mykolaiv, pois a tropa russa está a poucos quilômetros de onde vive com a nova companheira, que tem cuidado dele.
“Falei: ‘Claro que sim’. Porque, se o encontrarem, ele morre”, afirma Galina. Segundo ela, Mykolaiv fica a cerca de 130 quilômetros de Odessa — às margens do Mar Negro — e relativamente perto de Kherson, região onde os russos têm enfrentado dificuldades reais para avançar.
Mesmo assim, Galina admite que já não sabe mais com clareza quais áreas pertencem à Ucrânia e quais estão sob controle russo. “Às vezes, pergunto ao meu pai: ‘E essa cidade, é da Ucrânia ou da Rússia?’ Sei que eles pegaram Mariupol. Donetsk também está sob controle russo”, comenta.
Apesar da guerra, o pai dela, Oleksandr Shuhurov, retornou à Ucrânia após passar um ano refugiado em Bauru. Em entrevista concedida em abril de 2022, ele já demonstrava a intenção de voltar ao país natal para contribuir com a resistência.
Hoje com 71 anos, o caminhoneiro utiliza seu próprio veículo — de grande porte — para transportar alimentos às tropas ucranianas. Seus olhos testemunham diariamente destruição e morte, realidade que já ceifou a vida de um amigo muito querido de Galina.
Por essa razão, segundo ela, quem tem condições tenta migrar para a Europa, onde o processo é mais fácil. Vir para o Brasil, por outro lado, é muito distante e oneroso. O próprio pai dela enfrentou um verdadeiro périplo para chegar a Bauru em 2022.
Com quase quatro anos de conflito, o que se pede agora, mais do que nunca, é paz. “Chega de morte, chega”, finaliza Galina.