13 de março de 2026
OPINIÃO

Preparem as pipocas

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

Na história da República, tivemos vários ex-presidentes presos. O atual Luiz Inácio Lula da Silva chegou a ser condenado a nove anos e seis meses de prisão, pelo juiz Sérgio Moro. Passou 580 dias em cela especial, teve a sentença anulada e hoje preside o país pela terceira vez.

Ainda na República Velha (1889-1930) o marechal Hermes da Fonseca, que governou o país entre 1910 e 1914, teve sua prisão decretada, mas conseguiu um habeas corpus. A Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, também foi marcada pela deposição do seu antecessor. Washington Luiz foi preso no Forte de Copacabana com seus ministros, mas negociou a sua ida para o exílio na Europa. Getúlio também mandou prender Arthur Bernardes na Ilha das Cobras, por tentar um levante em Minas Gerais. Perceberam que o réu era um "vivo morto" e deixaram que fosse se exilar em Portugal. O enfurecimento da ditadura militar, após a edição do AI-5, levou Juscelino Kubitschek a ser preso e levado para um quartel, em Niterói, em 1968. Ficou um mês em prisão domiciliar e depois foi cuidar da vida como empresário.

O ex-presidente Jânio Quadros ficou confinado 120 dias em Corumbá (MS) pelo regime militar. Podia andar à vontade pelas ruas da cidade, até morar no Guarujá livre e lépido.

No caso de Lula, pela primeira vez na História um ex-presidente foi julgado culpado por um crime comum. Na sentença, Moro considerou Lula culpado por ter recebido um tríplex no Guarujá, dado como propina pela construtora OAS, que fora beneficiada com contratos com a Petrobras. Para o PT, foi uma "farsa judicial". A partir da próxima terça-feira, até 12 de setembro, vamos assistir pela tevê ao que está sendo chamado de "julgamento do século". Preparem as pipocas. O ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete réus serão julgados por cinco crimes pela primeira turma do STF. Entre os principais, a de abolição violenta do Estado democrático e golpe de Estado. O que torna o evento ainda mais espetacular é que, entre os acusados, estão generais de Exército e ex-ministros como Walter Braga Neto, que foi da Defesa e da Casa Civil; Augusto Heleno, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência; ex-comandante da Marinha, almirante Almir Garnier; dois ex-ministros da Justiça, Anderson Torres e Paulo Sérgio Nogueira e o ex-ajudante de ordens da Presidência, tenente-coronel Mauro Cid. Todos se dizem inocentes porque, no Brasil, não há lei que preveja a punição de atos preparatórios dos crimes de que são acusados. Claro que a defesa não está incluindo o crime de violência e grave ameaça, perpetrado quando do planejamento da morte de Lula, Alckmin e os presidentes da Câmara e do Congresso, para dar acesso livre ao desejado ditador. Vamos ver no que dá. O filho do principal acusado, Eduardo Bolsonaro, jura de pés juntos que seu pai jamais será preso. Os antecedentes históricos lhe dão respaldo e o apoio do poderoso Trump, é uma coação irresistível. O homem já mandou destroieres, submarinos atômicos e corvetas com misseis para as costas da Venezuela. Para Brasília, a ameaça laranja pode mandar um Stealth, o bombardeiro furtivo capaz de lançar uma bomba perfurante que pode alcançar Lula até debaixo da cama.

Teve grande repercussão a capa de anteontem da revista The Economist, que mostra uma foto de Bolsonaro com grandes cornos, fantasiado de viking, como aquele cidadão que comandou a invasão do Capitólio, em Washington. A publicação, considerada o oráculo da economia liberal mundial, não poupa elogios ao Brasil, que dá uma lição de maturidade democrática nos norte-americanos. Chama Bolsonaro de "Trump dos Trópicos", por ter denunciado fraude nas eleições, a exemplo do seu inspirador. Golpistas, no Brasil, vão a julgamento, o que não aconteceu nos Estados Unidos. Todos perdoados por Trump, inclusive ele, por ele mesmo.

O articulista disse que o Brasil está deixando o populismo para trás (será?).