08 de julho de 2026
JC CRIANÇA

Adolescência: qual a quantidade ideal de exercícios?


| Tempo de leitura: 3 min

A rotina de atividade física é fundamental em qualquer fase da vida, mas ela é ainda mais importante na adolescência. Tanto para que isso se torne um hábito na idade adulta quanto para inúmeros benefícios para a saúde, como melhora da capacidade cardiovascular, fortalecimento muscular e ósseo, controle do peso, melhor desempenho acadêmico e diminuição de sintomas ansiosos e depressivos.

Porém, há um limiar em que o excesso prejudica mais do que ajuda. Mas como saber quanto é demais? As recomendações internacionais indicam que adolescentes devem realizar pelo menos 60 minutos diários de atividade moderada a vigorosa.

Dessas, ao menos três vezes por semana devem incluir atividades que fortaleçam músculos e ossos. Essas diretrizes são respaldadas por entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

De acordo com o pediatra e médico do esporte e do adolescente Getúlio Bernardo Morato Filho, membro do Grupo de Trabalho de Atividade Física da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o "limite" de atividade física para uma prática saudável durante a adolescência é individualizado.

"Mas toda vez que ultrapassa 450 minutos de atividade moderada e intensa por semana, é importante algum monitoramento especializado, de preferência algum médico do esporte", pontua.

Ainda de acordo Morato Filho, o risco pode ser considerado muito alto quando o volume de treinamento chega a um patamar como "cinco horas por dia, cinco vezes por semana". Em geral, isso pode acontecer quando há uma especialização precoce em uma única modalidade.

"Essa especialização precoce acaba aumentando muito o risco do excesso de treino. O ideal é que o adolescente tenha contato com várias modalidades diferentes", explica Morato Filho.

O médico do esporte e fisiologia do exercício Paulo Zogaib, coordenador da medicina esportiva do Esporte Clube Pinheiros, ressalta que o treinamento do jovem deve ser individualizado: "Cada um tem uma carga ideal de treinamento. Não é quanto mais melhor ou aquela história velha do 'no pain, no gain'. Isso gera síndromes de desadaptação que aumentam o risco de lesões."

O excesso de treino tem sinais como fadiga persistente, dores musculares, insônia, irritabilidade, queda de desempenho, maior risco de infecções, lesões, ansiedade e até burnout. A adolescência é uma fase de intenso crescimento, quando ossos e cartilagens ainda estão em desenvolvimento. Isso os torna especialmente vulneráveis a lesões como fraturas por estresse, tendinites e problemas articulares.

Mesmo pequenas lesões repetitivas podem prejudicar o futuro no esporte. "Quando analisamos os atletas longevos, o ponto crucial é o número de lesões na carreira", diz Zogaib.

Excessos aumentam riscos de vigorexia e anorexia atlética

O exagero na prática de exercícios leva a riscos de distúrbios como a vigorexia, nome dado para o transtorno dismórfico muscular, um problema psicológico que faz com que os pacientes se enxerguem fracos e sem músculos quando são fortes e musculosos. Isso pode ocorrer entre adolescentes após a puberdade e eleva o perigo do uso de substâncias nocivas.

Há ainda risco de anorexia atlética, caracterizada por comportamento compulsivo em relação ao exercício; RED-S, sigla para "déficit energético relativo no esporte", condição que afeta em especial mulheres e ocorre quando atletas não consomem calorias suficientes para sustentar suas demandas energéticas, levando a uma série de consequências negativas para a saúde, como disfunção menstrual e baixa densidade mineral óssea; e até mesmo burnout devido à sobrecarga psicológica.

Para evitar que qualquer uma dessas coisas aconteça, a recomendação é que o desenvolvimento esportivo seja muito bem planejado e construído com o médico, os pais, o treinador e o adolescente.

"É realmente bem difícil o adolescente ultrapassar o limite de uma prática saudável de exercício físico. Geralmente, quando isso acontece, há estímulo de terceiros. Por isso é importante que todos estejam envolvidos", pontua o pediatra Getúlio Bernardo Morato Filho.

Em qualquer fase da vida, a prática de exercícios em nível de competição deve vir acompanhada de outros dois pilares que são sono e alimentação. Mas isso é ainda mais importante na adolescência, quando o corpo e o cérebro estão em formação.

Estatísticas da OMS mostram que quatro em cada cinco adolescentes não praticam atividade física suficiente. Por isso, apesar do perigo de excessos, os especialistas são categóricos em dizer que os benefícios da vida ativa superam em muito os riscos.