10 de julho de 2026
ENTREVISTA DA SEMANA

Karen Tavano Martins: imortal da música

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo Pessoal
Karen foi empossada pelo marido José Marcelo Martins, também imortal da Academia

O mais alto patamar a que o músico brasileiro pode chegar. Foi esta a mais recente conquista da pianista, regente e professora doutora bauruense Karen Tavano Martins, novo membro imortal da Academia Nacional de Música, sediada no Rio de Janeiro. Ex-docente do Unisagrado, ela foi empossada no último dia 24 pelo marido, o músico José Marcelo Martins, também imortal da Academia, e passou a ocupar a cadeira número 34 da tradicional instituição, da qual já fizeram parte nomes como Francisco Manuel da Silva e Carlos Gomes.

O reconhecimento reflete uma trajetória de dedicação à música, ao ensino e à pesquisa. Karen iniciou os estudos de piano aos 6 anos e, na USC (atual Unisagrado), graduou-se em música e iniciou a carreira como professora e regente de corais.

Na universidade, conheceu José Marcelo, com quem tem os filhos Giulia, 33 anos, Marcelo, 29 anos, Julia, 23 anos, e João Marcelo, 17 anos. A partir de Bauru, ela construiu uma produtiva trajetória profissional, que passa pelo comando de um instituto de música em Curitiba, pela docência na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste) e na Escola Municipal de Artes de Presidente Prudente, além das titulações obtidas e projetos artísticos desenvolvidos, como o d'Casa Jazz, formado pelo casal e o filho caçula.

Nesta entrevista, Karen revela suas primeiras impressões como "imortal da música" e revisita sua trajetória de amor pela arte e união familiar. Leia os principais trechos.

JC - Como foi o processo e qual o sentimento diante deste reconhecimento?

Karen - Estou muito honrada. É uma emoção grande, porque é o mais alto patamar a que o músico brasileiro pode chegar. Quando uma cadeira é aberta, há o convite após a análise do currículo acadêmico e artístico-musical, com exigência de mestrado e doutorado na área, docência em cursos de graduação e pós, artigos publicados e uma monografia inédita. A minha foi a tese de doutorado elaborada durante a pandemia, quando o ensino musical online ganhou força. Com a pesquisa, pude comprovar que esta modalidade é eficaz e deve ser utilizada para democratizar o acesso ao ensino musical em qualquer lugar do planeta.

JC - Como surgiu o interesse pela música?

Karen - Meu pai, Douglas, cantava no coral da ITE, da saudosa maestrina Vera Marcondes, e eu o acompanhava nos ensaios quando minha mãe, Marilza, professora de português e francês, estava lecionando. Foi meu primeiro contato com a música e, de 6 para 7 anos, comecei a estudar piano com uma professora particular. Depois, fiz curso técnico em piano no Conservatório Musical Pio XII, da USC, seguido da graduação em música na mesma universidade. Mais tarde, fiz curso técnico de piano popular e erudito, seguindo também na área do jazz.

JC - Quando o canto passou a fazer parte da sua vida?

Karen - Na faculdade, quando tive aulas com a dona Vera, a área do coral me chamou atenção. Também tive aulas de regência com José Paulo de Castro Berbel, imortal da Academia que foi maestro da Orquestra Veritas e é uma das minhas referências na música. Passei a me dividir entre piano e canto e não parei mais. Na época da graduação, eu já estava lecionando no Conservatório Pio XII, regia coros e trabalhava como pianista de corais. Ao longo da carreira, fui regente do conjunto Louv'art, no qual participei da gravação de seis CDs de música sacra e duas turnês nos Estados Unidos; do coral da USP; coral dos funcionários do Centrinho; coral dos funcionários do Banco do Brasil, em que ganhamos por duas vezes o prêmio Talentos Febraban; e coral dos Correios de Bauru.

JC - Foi nessa época em que deu aulas na USC?

Karen - Fui professora do conservatório e do curso de graduação em música da USC. Meu esposo também deu aulas lá por muitos anos. Cursamos a graduação na mesma época e, quando já lecionávamos e tínhamos feito muitos trabalhos artísticos juntos, nos encontramos como casal. Mais tarde, quando já estávamos morando em Presidente Prudente, também fomos docentes por anos na Unoeste.

JC - Simultaneamente ao trabalho, continuou estudando?

Karen - Sim, estudei regência em um projeto da USP de São Paulo e, por volta de 2005, nos mudamos para Curitiba, onde fiz mestrado em voz cantada, dentro de um programa de fonoaudiologia da Universidade Tuiuti do Paraná. Em Curitiba, meu esposo e eu tivemos o Kaluma Instituto de Música, onde trabalhávamos com enfoque em MPB e jazz com grandes professores. Depois, passamos no concurso público para dar aulas na Escola Municipal de Artes "Jupyra Cunha Marcondes", em Presidente Prudente, que tem um grande conservatório público com cerca de 700 alunos, um dos poucos que ainda fornecem diploma de curso técnico pelo MEC. Lá, sou regente de um coral e de um grupo vocal e leciono piano e canto no curso técnico em música erudita e música popular/jazz.

JC - Os filhos seguiram com vocês? Aliás, eles também são músicos?

Karen - Nos mudamos há cerca de 12 anos e a Giulia já estava trabalhando, com casamento marcado e não veio. Já o Marcelo - que foi contrabaixista quando tocávamos jazz no Largo Curitiba, um projeto da PUC, e deu aulas no nosso instituto - e a Julia logo passaram no vestibular e voltaram para o Paraná. O mais novo segue conosco e temos um grupo de música instrumental, o d'Casa Jazz, em que meu esposo é guitarrista, eu sou pianista e o João é contrabaixista. O grupo tem outros formatos com músicas cantadas e faz muitas apresentações em Presidente Prudente e região.

JC - Como um casal de artistas com quatro filhos fez para dar conta de tudo?

Karen - Foi um desafio, mas tivemos filhos muito parceiros, que sempre entenderam a importância da música. Eles têm certa diferença de idade, então, os mais velhos acabavam cuidando dos mais novos e, quando iam às apresentações, ficavam quietinhos, comendo um lanche ou desenhando. E, quando maiores, até participaram. Eles são ótimos e, por isso, conseguimos administrar muito bem toda nossa trajetória.