19 de março de 2026
OPINIÃO

Política e formação: uma combinação que o Brasil evita

Por Fabricio Rodrigues, cientista político e coordenador do MBL (Movimento Brasil Livre) |
| Tempo de leitura: 3 min

Se estudar fosse a chave para o sucesso na política brasileira, os resultados das eleições municipais de 2024 teriam mostrado algo muito diferente do que vimos. Mas não! O Brasil continua a ser o país onde o diploma parece mais um acessório dispensável do que uma exigência para governar e legislar. Vamos aos dados: entre os 5.569 prefeitos eleitos, apenas 59,5% possuem ensino superior completo. Mais de 40% dos nossos prefeitos eleitos não chegaram sequer a um diploma universitário. Agora, quem não ama a ironia disso tudo?

Parece que para ser um "líder" municipal o conhecimento acadêmico é um luxo, não uma necessidade. Talvez, na próxima eleição, devemos incluir nos debates perguntas como: "Quantas obras de pavimentação você já viu na sua vida?" em vez de questionar planos de governo embasados em evidências e estudos. Afinal, por que exigir estudos quando o que parece importar é o carisma e a habilidade de apertar mãos?

E os vereadores? Ah, esses são um caso à parte. Dos 58.400 eleitos em todo o Brasil, somente 30% possuem ensino superior completo. Isso mesmo, meus caros. Apenas 3 em cada 10 vereadores têm um diploma universitário. Outros 37% possuem apenas o ensino médio completo, enquanto 28% sequer completaram o ensino médio. Você pode estar se perguntando: "Mas como é possível que legisladores, responsáveis por elaborar leis e fiscalizar o Executivo, não tenham nem o ensino básico completo?" A resposta é simples: no Brasil, a escolaridade é um detalhe irrelevante para o eleitorado e, aparentemente, para a própria democracia.

Em um país onde tantas decisões políticas impactam diretamente a educação, é quase cômico ver que o próprio sistema não exige formação acadêmica para os tomadores de decisão. Como um vereador sem ensino médio completo pode debater e aprovar pautas relacionadas à reforma educacional? É quase como se estivéssemos pedindo para um chef de cozinha ensinar física quântica. Mas no Brasil, isso é visto como "inclusão", e não como um problema sistêmico.

Regionalmente, os números também não são animadores. No Norte e no Nordeste, as regiões historicamente mais afetadas por desigualdades educacionais, os índices de escolaridade dos eleitos são ainda mais baixos. E, mesmo no Sudeste, a região mais rica do país, não há grande diferença em termos de qualificação acadêmica dos representantes eleitos. Parece que, independentemente da região, estudar não é requisito para entrar na política. Quem precisa de diplomas quando se tem Fundão Eleitoral de Bilhões de reais?

Para os que acreditam que a educação é a solução para o futuro do Brasil, esses dados são um balde de água fria. Como convencer a população da importância de estudar se os exemplos de "sucesso" no cenário político mostram o contrário? É difícil argumentar que estudar vale a pena quando tantos eleitos chegaram ao topo sem o Ensino Básico completo?

E o que dizer sobre os impactos disso? Como esperamos que prefeitos e vereadores sem formação acadêmica consigam gerenciar orçamentos, planejar cidades e criar leis eficazes? É claro que não se trata apenas de ter um diploma, mas de possuir o conhecimento necessário para tomar decisões importantes. Infelizmente, no Brasil, o critério parece ser mais sobre quem você conhece do que o que você sabe.

A democracia brasileira, ao permitir que qualquer cidadão maior de idade e alfabetizado se candidate, mostra seu lado inclusivo, mas também expõe uma falha gritante: a falta de preparação dos nossos representantes. Enquanto não houver uma exigência mínima de escolaridade, continuaremos a ver debates vazios, projetos de lei sem fundamento técnico e a perpetuação de um ciclo de ignorância institucionalizada.

Portanto, se você ainda acredita que estudar é essencial para "vencer na vida", talvez seja hora de repensar. Pelo menos na política brasileira, o diploma não vale nada. Afinal, como mostram as eleições de 2024, o que realmente importa é a capacidade de fazer promessas vazias e ganhar votos de quem não se importa como quem esteja no Paço Municipal ou na Câmara de Vereadores. E para isso, meus amigos, não há diploma que ensine!