08 de julho de 2026
SAÚDE

As mentiras mais comuns sobre câncer

Por Bernardo Yoneshigue |
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução

Hoje em dia é cada vez mais difícil existir uma pessoa que não conheça alguém que tenha recebido um diagnóstico de câncer. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma a cada cinco pessoas desenvolve a doença ao longo da vida.

E em meio ao impacto que ela traz para os pacientes e o seu entorno, existem pessoas que se aproveitam para disseminar notícias falsas prometendo curas sem respaldo científico ou apontando causas que não são ligadas aos tumores.

Oncologistas listaram as principais fake news que chegam a seus consultórios. Entre elas, que o consumo de açúcar poderia, sozinho, causar a doença; que o cigarro eletrônico não seria um fator de risco como o convencional; que chás, suplementos e outras fórmulas naturais seriam curas "escondidas" dos pacientes e que existiria uma pílula mágica capaz de dar fim a todos os tumores.

A circulação dessas inverdades tem aumentado, afirmam, e a preocupação é porque elas estão longe de serem apenas mentiras inofensivas. Às vezes, podem até mesmo agravar o quadro do paciente, conta o oncologista Carlos Gil Ferreira, diretor médico da Oncoclínicas&Co e presidente do Instituto Oncoclínicas:

"Alguns pacientes de fato abandonam os tratamentos convencionais pelos milagrosos. E outros tentam coexistir os dois, mas existem substâncias, como alguns fitoterápicos, que podem interferir na eficácia dos tratamentos convencionais", alerta o médico.

Bruna Zucchetti, oncologista do Hospital Nove de Julho, em São Paulo, e da Dasa Oncologia, lembra ainda que essas falsas soluções podem levar indivíduos que já estão numa situação de maior vulnerabilidade a criarem dívidas com produtos ineficazes:

"Elas criam falsas expectativas para familiares e pacientes, fazendo, muitas vezes, que duvidem de nós, oncologistas, quando tentamos mostrar que não são verdadeiras. Além disso, existe a toxicidade financeira dos gastos com essas terapias que não têm nenhuma evidência científica".

Não caia nessas 5 fakenews

Açúcar seria um causador do câncer

Bruna Zucchetti conta que é comum escutar que algum vilão seria responsável sozinho por causar o câncer. E, embora de fato existam fatores de risco fortemente associados à doença, os culpados mais comumente apontados são outros, como o consumo de açúcar e experiências emocionais. "Vemos fake news associando um único fator como a causa do desenvolvimento do câncer e sabemos que ele é uma doença multifatorial. Muitos afirmam que o açúcar ou o estresse e trauma alimentam o câncer. E vemos pouca ênfase em fatores que realmente têm comprovação em aumentar o risco da doença, como obesidade, sedentarismo, implantes hormonais sem indicação médica", diz.

Cigarro eletrônico não teria impacto no câncer

Uma fake news bastante disseminada preocupa Luiz Augusto Maltoni, diretor executivo da Fundação do Câncer: a de que os cigarros eletrônicos seriam uma alternativa ao tabagismo tradicional por não aumentarem o risco de câncer: "Sabemos que o cigarro é um dos mais importantes fatores de risco para câncer, e um problema imenso que enfrentamos é a tentativa de se introduzir no mercado brasileiro o cigarro eletrônico. Há muitas substâncias cancerígenas ali, mas circulam informações falaciosas de que ele seriam menos agressivos."

Chás, fitoterápicos e suplementos para tratar

Na onda das alternativas milagrosas que circulam nas redes sociais, os especialistas destacam chás, fitoterápicos e suplementos alimentares que prometem combater o a doença. No entanto, nenhum é comprovado por pesquisas. "Para chegarmos a um medicamento que seja comprovadamente eficaz, são muitos anos de estudos, que passam por diversas fases, como as pré-clínicas, em laboratório, e as clínicas, com humanos. Apenas depois sabemos se ele funciona ou não", explica Maltoni.

Pílula milagrosa

Na esteira dos tratamentos alternativos, é comum médicos ouvirem que há uma pílula "milagrosa" capaz de curar qualquer câncer, mas que ela é escondida dos pacientes pela indústria ou pelos especialistas. "Sempre que os pacientes e pessoas leigas questionam sobre isso, a impressão que dá é que a indústria farmacêutica e nós, oncologistas, não queremos que isso seja verdade, tentando desmentir o assunto. Claro, se houvesse uma droga capaz de fazer tudo isso, seríamos os primeiros a querer usar. Mas o câncer é uma doença heterogênea, com muitas células diferentes com inúmeras mutações, então não podemos esperar que apenas uma medicação seja capaz de erradicar todos os cânceres", explica BrunZucchetti. Carlos Gil Ferreira lembra um caso emblemático no Brasil, o da fosfoetanolamina. A substância ficou conhecida como "pílula do câncer", e uma lei chegou a permitir o seu uso em 2016, mesmo sem estudos ou aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Não existiria a cura total do câncer hoje

Outra informação falsa que Maltoni escuta é a de que os tratamentos convencionais hoje não são capazes de levar um caso de câncer à cura completa. Ele explica que o termo "câncer" diz respeito a mais de 200 manifestações da doença, e que em boa parte delas há, sim, chance de eliminá-la: "O paciente que recebe um diagnóstico de câncer já parte do pressuposto que ele tem uma doença incurável e que o desfecho final é provavelmente a morte. Mas a grande maioria dos cânceres hoje é curável. Das doenças crônicas, ele é o que tem mais oportunidade de cura. Temos resultados fantásticos com tratamentos." O especialista esclarece que a cura, quando se fala em câncer, depende do tempo após a conclusão do tratamento, ou seja, é difícil afirmar imediatamente se a terapia irá curar o paciente ou não.