09 de julho de 2026
ENTREVISTA

Ancestralidade marca trajetória de advogado indígena

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Arquivo pessoal
No dia de sua formatura em Direito

Ricardo Manoel Sobrinho, 51 anos, acredita ser o primeiro advogado indígena do Estado de São Paulo,  carrega em sua trajetória o legado de cultura, resistência e militância de sua família terena. Neto de Tibúrcio Manoel Sobrinho e Esther da Silva Sobrinho, e sobrinho de Jupira Manoel Sobrinho, a Jupira Terena, lideranças da Reserva Indígena de Araribá, em Avaí, ele perdeu a mãe, Jurema, ainda criança e, aos cuidados dos avós, vivenciou de perto as lutas e desafios de seu povo em diferentes aldeias.

Nascido em Duartina, mudou-se para Bauru para concluir o ensino médio, seguindo os ensinamentos dos avós sobre a importância dos estudos. Na época, conheceu Karem, com quem se casou e teve os filhos Ricardo, 25 ano e Juan, 22 anos. As responsabilidades da vida adulta o distanciaram da comunidade e, em meio a dificuldades financeiras, trabalhou como vendedor, mototaxista e até dono de padaria para sustentar a família e conseguir custear o curso de Direito. Com esforço e persistência, concluiu a faculdade e especializou-se em Direito de Gestão Ambiental, construindo uma carreira que é motivo de orgulho, mas também um lembrete sobre a necessidade de maior representatividade da população indígena. Nesta entrevista, ele relembra sua trajetória e celebra a continuidade do legado de sua família no movimento indígena por meio de seu primogênito, Ricardo Baraviera Sobrinho.

JC - Conte um pouco sobre sua história.

Ricardo - Sou filho de mãe solo criado pelos avós maternos. Meu avô, Tibúrcio, veio da aldeia Ipegue, de Aquidauana (MS), e minha avó, Esther, de uma aldeia vizinha, Bananal. Ele veio para Bauru na década de 1950, quando aqui já existiam os guaranis, que vivam do extrativismo, e o Marechal Rondon trouxe os terenas, porque sempre fomos agricultores, com origens na agricultura e pecuária. Meu avô veio de trem e começou trabalhando na triagem como lavador de vagão, depois como foguista e se aposentou como maquinista. Ele foi cacique na reserva de Araribá, em Avaí.

JC - Ele conheceu sua avó em Bauru?

Ricardo - Em Aquidauana, mas meu bisavô materno não queria que eles se casassem e a mandou para Bauru, onde tinha parentes. Os dois acabaram se reencontrando aqui e foram militantes da causa indígena. Minha avó entrou na Funai como professora e tornou-se a primeira técnica indigenista mulher da fundação, inicialmente em uma comunidade indígena no MS. Também lecionou em Chapecó (SC), Bauru e foi técnica indigenista em Peruíbe.

JC - E sua mãe?

Ricardo - Ela faleceu em 1978, quando eu tinha 5 anos. Nasci em Duartina, mas, com 1, 2 anos, fomos para uma reserva próxima a Chapecó, onde ela era enfermeira e minha avó, professora da Funai. Com 3, 4 anos, voltamos para Avaí, quando elas conseguiram transferência, época em que meu avô foi cacique. Quando minha mãe morreu, retornamos para o Bananal, onde minha avó foi professora. Ela foi promovida a técnica indigenista e fomos para a aldeia Buriti, perto de Sidrolândia. Ficamos na região de Campo Grande até meus 11, 12 anos, e retornamos para Avaí, quando meu avô voltou a ser cacique. Foi por articulação dele com políticos, por exemplo, que a rede de energia elétrica foi estendida até a comunidade e o projeto da aldeia foi financiado.

JC - Chegou a seguir os passos dos seus avós?

Ricardo - Tive uma casa de cultura indígena com exposição de objetos de diversas tribos do Brasil, mas com uns 20 anos, me distanciei da militância por força do trabalho. Por estímulo dos meus avós, com 15 anos, vim morar em uma pensão em Bauru para estudar no Stela Machado, mas houve uma greve e fiz o primeiro ano do ensino médio no Colégio Real em Duartina, época em que caminhava 12 quilômetros para embarcar na Kombi que transportava os alunos. Depois, concluí o segundo grau no Stela, onde conheci a Karem. Com as dificuldades, aos 18 anos, aprendi a ter iniciativa nos negócios e comecei a vender sardinha, banana, alface. Colocava tudo na Saveiro que minha avó conseguiu comprar e ia.

JC - Teve outros trabalhos?

Ricardo - Trabalhei com venda de carros, mas, quando me casei, reduzi para trabalhar como mototáxi. Quando ela ficou grávida, descobri que a Unip estava com inscrições abertas para o vestibular de Direito, prestei e fui aprovado. No fim do segundo ano de curso, pensei em desistir, mas meus avós me orientaram a procurar a Funai e consegui um estágio não remunerado, época em que nasceu meu segundo filho. Como vendi a padaria que tinha comprado, fazia compra e venda de carro para me manter. Depois, meu avô me chamou para ir à Brasília e conseguimos o custeio do restante do curso, que concluí em 2004.

JC - Como se sente sendo o primeiro advogado indígena do Estado?

Ricardo - Hoje, há advogados, médicos, engenheiros, professores, empresários indígenas, embora, na TV, a gente só apareça como o ser místico estereotipado. Somos 0,8% dos brasileiros e nossa voz é pequena para reivindicarmos representatividade. Espero que o avanço que vemos acontecer com a população preta também seja em breve uma conquista nossa.

JC - Como está sendo ver seu filho na militância?

Ricardo - O Ricardo formou-se em direito, trabalhou comigo e começou a participar de um projeto que acompanho, do professor Xaides, com 81 famílias indígenas de Bauru. Ele gostou muito, aprofundou o contato com a comunidade indígena e acabou assumindo um cargo no Distrito Sanitário Especial Indígena de Curitiba. Agora, está indo trabalhar em Brasília como advogado na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), a maior entidade de representação indígena do País. É uma grande alegria.

O QUE DIZ O ADVOGADO

'Por estímulo dos meus avós, com 15 anos, vim morar em Bauru para estudar'

'Com as dificuldades, aos 18 anos, aprendi a ter iniciativa nos negócios e fui vender sardinha, banana, alface'

'Há advogados, médicos, engenheiros indígenas, embora, na TV, a gente só apareça como estereótipo'