Cada vez mais bem elaborados para enganar vítimas a partir do uso de toda tecnologia disponível no mercado, os crimes digitais crescem a cada ano e já fazem uma vítima a cada 16 segundos no País, de acordo com o Anuário de Segurança Pública 2024. Pesquisa recente da DataSenado em parceria com a Nexus também revela que um em cada quatro brasileiros perdeu dinheiro nos últimos 12 meses com fraudes cibernéticas.
Para alertar moradores de Bauru e região sobre os golpes mais comuns e como não cair no emaranhado de armadilhas que os estelionatários lançam sobre seus alvos, José Milagre, advogado especialista em direito digital e crimes cibernéticos, e Emily Lucila de Oliveira, advogada especialista em direito digital e proteção de dados, explicam como eles funcionam. Veja abaixo.
FALSO GERENTE BANCÁRIO
Por ligação, o criminoso informa ser do banco da qual a vítima é cliente e a questiona sobre uma tentativa de transação suspeita de valor alto. Em seguida, a orienta a fazer um procedimento pelo aplicativo ou no caixa eletrônico. Ainda ao telefone, o estelionatário induz o cliente a seguir alguns passos que acabam liberando o acesso à conta em outro dispositivo.
"É quando o golpista fará transferências ou empréstimos. É preciso estar atento porque o número que aparece no celular da vítima é o do banco, por meio de uma técnica de voz sobre IP, um mascaramento de um número passivo (que só recebe ligação). Institucionalmente, banco não liga para clientes", esclarece Milagre.
Mesmo quando a vítima contribui para a efetivação do golpe, Emily acrescenta quo a empresa pode ser obrigada na Justiça a ressarcir os valores. Entre os aspectos que serão considerados, está o tempo que o banco esperou para liberar o acesso à conta. "Além disso, é dever do sistema de segurança bancário detectar mudanças bruscas no padrão de consumo do cliente, como movimentações financeiras muito altas e em localidades não usuais", frisa.
CLONAGEM DE REDES SOCIAIS E WHATSAPP
O estelionatário tem acesso ao nome, foto e contatos da vítima e, se passando por ela, envia mensagens por WhatsApp informando que mudou de número. Na sequência, passa a pedir dinheiro emprestado a estes contatos. Já nas redes sociais, a clonagem de perfis é usada como vingança ou extorsão, a partir da exposição de fotos, vídeos e mensagens de cunho íntimo.
"Também é comum a invasão de redes sociais da vítima para anunciar móveis a preços muito abaixo dos de mercado, sob o argumento de que precisa vendê-los rapidamente porque, por exemplo, está indo morar em outro país", comenta Emily. Já quando a invasão é feita em perfis de lojas, o golpista anuncia promoções para pagamentos à vista, por exemplo, via Pix.
Para evitar este tipo de violação, Milagre explica que acionar a verificação em dois fatores é suficiente. Além disso, é importante estar atento a mudanças de comportamento de perfis e WhatsApp de pessoas conhecidas, como forma de escrever e padrões de abordagem.
FALSAS PROMOÇÕES E ANÚNCIOS
O criminoso coleta dados públicos, como imagens e a voz de pessoas conhecidas e, por de inteligência artificial (IA), cria vídeos manipulados, cada vez mais realistas, para anunciar produtos que jamais chegarão aos consumidores enganados. São as chamadas deepfakes.
Famosos como William Bonner, Luciano Huck, Drauzio Varella, Marcos Mion e Ana Maria Braga já foram usados para a prática deste tipo de fraude. "No ano passado, surgiu um anúncio com o Luciano Hang vendendo ar-condicionado a R$ 158,00 para ajudar as vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. São vídeos de IA que deverão ficar cada vez mais realísticos, o que exigirá uma moderação mais rigorosa das redes sociais", frisa Milagre.
FALSAS LOJAS EM PERÍODOS DE GRANDE CONSUMO
Em períodos de maior consumo, como a Black Friday, Natal e Dia das Mães ou mesmo no início do ano, quando cresce a procura por material escolar, os golpistas criam sites idênticos aos de lojas conhecidas, usando uma URL diferente. Portanto, é a este detalhe - o endereço eletrônico - que os consumidores precisam estar atentos.
"Normalmente, usam um encurtador de URL para tentar disfarçar ou mudam um pequeno detalhe do endereço e fazem a cópia do site oficial utilizando clonadores. Então, oferecem produtos a preços baixos com pagamento via Pix, normalmente, em conta de 'laranjas' . Depois, impulsionam o anúncio da promoção nas redes, no buscador do Google, nas propagandas do YouTube, informando que são poucas unidades para criar um gatilho", explica Milagre.
TAREFA ONLINE
Passando-se por funcionário de uma empresa de marketing digital, o criminoso entra em contato por WhatsApp, Telegram ou Skype e promete dinheiro fácil em troca de tarefas simples online, como curtir e comentar em publicações, sob pretexto de melhorar a visibilidade de produtos na Internet. Inicialmente, para estabelecer uma relação de confiança, o estelionatário efetua pequenos depósitos na conta da vítima.
"Na sequência, passa a pedir dinheiro dizendo que, naquele momento, não tem crédito e depois fará o reembolso. Ou pede para a pessoa criar uma conta de exchange para investir em criptomoedas", cita Emily. Da mesma forma, a vítima investirá e receberá algumas vezes até aplicar um valor maior e ser informada de que o investimento, possível de ser visualizado em um site com informações falsas, só será liberado mediante outro pagamento para confirmar sua identidade. Após a efetivação do golpe, a pessoa é bloqueada.