Já na maturidade, o locutor e empresário Deodato Enz, 65 anos, mais conhecido como Tatão, reinventou-se profissionalmente, encerrando uma carreira bem-sucedida de 40 anos no setor bancário para abraçar a paixão pela comunicação e pelo universo sertanejo. Criado em um sítio na pequena Tejupá (SP), onde nasceu, precisou lidar com a perda precoce do pai e assumir as finanças da família aos 15 anos, quando iniciou sua trajetória no banco.
Oito anos depois, já ocupava o cargo de subgerente. Alçado a gerente-geral logo em seguida, passou por diversas cidades do Interior paulista, até fixar-se em Bauru, onde aposentou-se em 2015. Foi quando decidiu seguir seu sonho: o rádio, onde criou o personagem Tatão, que cativa ouvintes da Top FM de Bauru, Nova FM de São Manuel e Rádio Piratininga de Piraju.
Com seu estilo caipira autêntico, ele compartilha causos, músicas e muito humor nos programas Comitiva do Tatão, Canto da Viola e Tatão Show. Além do aspecto lúdico da profissão, Deodato - que é casado com Maria Cecilia e pai de Edvard, Ana Clara e Bruno - também toma conta do âmbito empresarial, sendo responsável, a bordo de sua caminhonete personalizada, por captar anunciantes para as rádios onde trabalha.
Nesta entrevista, ele relembra sua trajetória, fala de momentos difíceis como a perda do pai e a única vez em que ficou desempregado e mostra, com seu exemplo de vida, que nunca é tarde para concretizar sonhos. Leia os principais trechos.
JC - Como foi o início da sua vida em uma cidade pequena?
Tatão - Sou filho único, criado em um sítio no bairro dos Martins, em Tejupá. Andava seis quilômetros todo dia para ir à escola e ajudava meus pais na cultura de café, no trato com vaca, porco. Com 14 anos, fomos morar em Piraju para eu continuar os estudos e comecei a vender banana na rua, que meu pai trazia do sítio de Tejupá, porque ele continuou trabalhando com venda de café. Mas, quando eu estava com 15 anos, ele morreu em um acidente de carro e fiquei só com minha mãe, que era dona de casa. Foi terrível. Meu pai tinha um seguro de vida no Bradesco, que usamos para comprar uma casa. Na ocasião, eu conheci o gerente e ele se sensibilizou com minha história.
JC - Foi quando começou a trabalhar em banco?
Tatão - Sim. Ele me contratou como contínuo, que fazia café, entregava correspondência. Logo em seguida, fui para a área de entrega de talão de cheque, de cheque especial, com contato com o cliente. Dali, comecei a vender os produtos do banco, como seguro, e logo fui atuar na área de expansão, com a função de conquistar novos clientes. Com oito anos de banco, fui transferido para Barra Bonita com subgerente e, depois, para Taquarituba. Em 1985, fui promovido a gerente-geral em Boraceia, na época da redemocratização, em que a taxa de juros foi de 80% para 2% ao mês. Foi um reboliço. Depois, o juro começou a subir, até a chegada do Plano Collor, que também foi um choque.
JC - Você ainda estava em Boraceia?
Tatão - Não. Vim para Duartina em 1987, época em que conheci a Cecilia e me casei. Em 1989, fui transferido para Garça, onde passei pelo Plano Collor, e depois fui para Ourinhos. Em 1994, saí do Bradesco e fui para o Banco Geral do Comércio, que era Camargo Corrêa, em Marília. Após oito meses, o banco foi comprado pelo Santander e lá fiquei até 2001, passando também por Ourinhos, de onde saí para integrar a equipe do Banco Rural em Bauru. Trabalhei um ano, vi que eles iam quebrar e pressionei para ser demitido. Desempregado, voltei para Marília, onde tinha uma casa, e cheguei a trabalhar em financeira, vendendo financiamento de caminhão para sustentar a casa.
JC - Nessa época já tinha filhos?
Tatão - Já. Tive que colocá-los em escola pública. Mas, em 2004, o Sudameris de Marília me chamou para ser gerente operacional e montar a carteira de clientes do zero. Após um ano, com a tarefa cumprida, fui para Bastos, depois Presidente Prudente, quando o Banco Real comprou o Sudameris. Em 2011, vim para Bauru como gerente-geral da agência Centro para fazer a transição do Banco Real para o Santander. E em 2015, depois de 40 anos de banco, me aposentei. Só que eu gostava muito de rádio e sempre quis interpretar, então, já tinha criado, em 2010, o Tatão, um personagem caboclo sertanejo, e o Tatão Show. Eu já apresentava um programa na Rádio Bandeirantes AM de Bauru e inseri o personagem. Depois de um ano, até o pessoal de banco me chamava de Tatão.
JC - Atuou em quais rádios mais?
Tatão - Tive uma passagem pela Auriverde em 2013. Em 2015, com a carreira bancária encerrada, fui para a Rádio Piratininga de Piraju, onde criei a Comitiva do Tatão e o Canto da Viola, este mais caboclo. Em 2021, o Ubiratan Marques, que trabalha na Top FM, falou sobre mim para o Maquinhos (Marco Aurélio, sócio-proprietário), e comecei com a Comitiva do Tatão, aos domingos, das 8h às 12h, e depois, o Canto da Viola, de segunda a sexta, das 5h às 7h e das 18h às 19h. Continuo em Piraju e também estou, há dois anos, na Nova FM de São Manuel com o Tatão Show, que traz música e informação. Tenho um estúdio em casa, em Duartina, então faço e disparo tudo de lá. Além disso, faço todo o trabalho de captação de anunciantes para os programas e atualmente são 39 nas três rádios.
JC - Como é o personagem Tatão?
Tatão - Com o Tatão, uso palavreado caipira, conto causos para divulgar o produto de um anunciante e interajo com o Chicão Boiadeiro, escudeiro - na verdade, imaginário - que cuida do musical, edita os áudios enviados pelos ouvintes para ir ao ar. Também uso o bordão 'põe no carreador' para o Chicão colocar a música no ar - seja um modão romântico ou dançante - e dou sempre a risada que virou marca registrada. Conto causos que têm relação com minha vida na zona rural, falo do bairro dos Martins, do cultivo de café, de pescaria, e o pessoal adora, porque é algo diferente. Tenho um retorno muito positivo, que me ajuda a seguir em frente.
O QUE DIZ O LOCUTOR
'Quando tinha 15 anos, meu pai morreu em um acidente de carro e fiquei só com minha mãe, que era dona de casa''Fui promovido a gerente de banco na época da redemocratização, em que a taxa de juros foi de 80% para 2% ao mês'
'Uso palavreado caipira, conto causos e dou sempre a risada que virou marca registrada'